Uma leitura anarquista da interseccionalidade

A palavra “interseccionalidade” têm sido utilizada com frequência em meios de Esquerda, muitas vezes sem reflexão apropriada em relação aos seus significados, e sem uma relação real com a prática diária de construção de emancipações. Atestando à incrível capacidade de Recuperação/cooptação do Capitalismo contemporâneo, o termo é amplamente utilizado em vertentes liberais do feminismo para fazer referência a uma suposta equivalência das opressões. Esse conceito é, muitas vezes, utilizado de maneira superficial e errônea – acompanhando o apagamento do protagonismo de mulheres negras e trans, e uma definição vazia de lugar de fala que é compreendida como “só eu posso falar disso”, ao invés de uma leitura materialista dos marcadores sociais da diferença. Essa discussões emergem em um momento em que a Esquerda – inclusive os anarquistas – parecem mergulhados em um debate sem fim sobre “economicismo” vs. “identitarismo”. O que propomos aqui é um retorno à história do anarquismo – e, principalmente, do anarcafeminismo -, bem como a incorporação de conceitos e estratégias produzidas pelo anarquismo decolonial, para buscarmos a ressignificação (desvio?) do conceito de interseccionalidade.

Continue reading “Uma leitura anarquista da interseccionalidade”

Fuck off Google

(Publicado originalmente como um capítulo do livro do Comitê Invisível “Aos Nossos Amigos: Crise e Insurreição”. N-1 Edições, São Paulo. 2015)

 

1. NÃO HÁ “REVOLUÇÕES FACEBOOK”, MAS UMA NOVA CIÊNCIA DE GOVERNO, A CIBERNÉTICA

Poucos conhecem a genealogia e, no entanto, vale a pena conhecê-la: o Twitter provém de um programa denominado TXTMob, inventado por ativistas norte-americanos para, através do celular, se organizarem durante as manifestações contra a convenção nacional do Partido Republicano de 2004. Esse aplicativo foi então utilizado por umas cinco mil pessoas, que partilhavam em tempo real informações sobre as ações em curso e os movimentos da polícia. O Twitter, lançado dois anos mais tarde, foi utilizado para fins similares, por exemplo, na Moldávia. As manifestações iranianas de 2009, por sua vez, popularizaram a ideia de que ele seria a ferramenta necessária para coordenar os insurgentes, em particular contra as ditaduras. Em 2011, quando as revoltas atingiram uma Inglaterra que pensávamos definitivamente impassível, os jornalistas fabularam, e com lógica, que os tweets haviam facilitado a propagação dos motins a partir de seu epicentro, Tottenham. Acontece que, devido às suas necessidades de comunicação, os insurgentes começaram a utilizar os BlackBerry, celulares seguros projetados para o alto escalão de bancos e de multinacionais, e dos quais os serviços secretos ingleses não tinham sequer as chaves de decodificação. Um grupo de hackers chegou a piratear o site da BlackBerry para dissuadi-la de cooperar com a polícia. Se dessa vez o Twitter permitiu uma auto-organização, foi mais a do grupo de cidadãos-varredores que resolveu limpar e reparar os danos causados pelos confrontos e saques. Essa iniciativa foi coordenada pela Crisis Commons: uma “rede global de voluntários que trabalha em conjunto para construir e utilizar ferramentas tecnológicas que ajudem a responder a desastres e que melhorem a resiliência e a resposta a crises.” Na época, um jornalzinho da esquerda francesa comparou tal iniciativa com a organização da Puerta del Sol durante o movimento dito “dos indignados”. O amálgama entre uma iniciativa que visa a acelerar o regresso à ordem e o fato de milhares de pessoas se organizarem para viver numa praça ocupada, apesar das constantes investidas da polícia, pode parecer absurdo. A não ser que se veja aqui apenas dois gestos espontâneos, conectados e cidadãos. Desde o 15-M, os “indignados” espanhóis, pelo menos uma parte não negligenciável deles, invocaram sua fé na utopia da cidadania conectada. Para eles, as redes sociais virtuais não haviam apenas acelerado a propagação do movimento de 2011, elas haviam, também e sobretudo, lançado as bases de um novo tipo de organização política, para a luta e para a sociedade: uma democracia conectada, participativa, transparente. É sempre deplorável, para “revolucionários”, partilhar uma ideia dessas com Jared Cohen, o conselheiro para antiterrorismo do governo norte-americano que contatou e pressionou o Twitter durante a “revolução iraniana” de 2009 para manter seu funcionamento apesar da censura. Recentemente, Jared Cohen escreveu com seu ex-patrão do Google, Eric Schmidt, um livro político paralisante, “A nova era digital”. Já nas primeiras páginas pode-se ler esta ótima frase para alimentar a confusão quanto às virtudes políticas das novas tecnologias de comunicação: “A internet é o maior experimento envolvendo anarquia da história.”

Continue reading “Fuck off Google”

[Zine] Habitar: Instruções

Habitar – Instruções para a Autonomia
Inhabit / Coletivo Planètes PDF

Lançando pela primeira vez em português, “Habitar: Instruções para a Autonomia” é um zine-livreto sobre a importância do contrapoder para a revolução. “Habitar” procura uma mirada sobre o que significa viver e lutar em um mundo em chamas; foca-se em um conjunto de práticas de libertação para a construção de um novo mundo sobre as ruínas deste mundo. Para além de tentar escapar das ruína da mudança climática e do capitalismo contemporâneo construindo enclaves fortificados, “Habitar” imagina um mundo de territórios autônomos e compartilhamento de recursos, habilidades, e contrapoder.

Sobre Grandes Mobilizações e o Que Fazer Quando a Fumaça Se Dissipa

“Muitas pessoas no meio anarquista dependem de uma narrativa triunfante, na qual caminhamos de vitória em vitória até o momento em que atingimos algo que realmente valha a pena. Mas os movimentos também têm seus ciclos de vida. Eles inevitavelmente atingem um auge e vão ao declínio. Se nossas estratégias se baseiam apenas em um crescimento infinito estaremos nos condenando a uma derrota inevitável. Isso vale também para as narrativas que determinam nossa moral” -CrimethInc. Ex-Workers’ Collective, “After the Crest”

Na esteira do Fagulha Podcast #02, consideramos fundamental compreender a história recente dos movimentos anarquistas, autonomistas, e de vertente libertária para entendermos onde estamos e para onde vamos como movimento.

Em 2015, o pessoal da Facção Fictícia escreveu um documento em duas partes narrando/estudando os eventos transcorrido entre 2013 e 2015 no campo das lutas anticapitalistas no Brasil.

Linkamos abaixo esses documentos para que xs compas possam compartilhar dessaa reflexões.

Boa leitura!

https://faccaoficticia.noblogs.org/files/2015/08/DIAGRAM_FINAL.cleaned.pdf

https://faccaoficticia.noblogs.org/files/2015/07/Lutando_2_web.cleaned.pdf

[Zine] Contra a pacificação, o fogo das revoltas anarquistas!

Estamos iniciando um projeto novo, divulgando zines e textos de compas e coletivos anarquistas e autonomistas, bem como criando nosso próprio material. Para inaugurar, o zine-livreto “Contra a pacificação, o fogo das revoltas anarquistas!”, do Matheus Marestoni, uma reflexão sobre os impactos das Revoltas de Junho no anarquismo insurrecionalista, ação direta, tática e estratégia anarquistas, e a tentativa do Estado e dos movimentos moderados de cooptar e pacificar as ruas.

[…] nota-se o combate ao princípio da autoridade. Esse combate norteia as ações diretas, que se configuram de diferentes maneiras com o passar dos anos. Contudo, concomitantemente a atualização das táticas de ação direta e a tentativa do Estado de suprimi-las também se atualiza. Não se pode deixar mencionar a atuação recorrente dos movimentos institucionais e partidos de esquerda no combate aos anarquistas, agindo concomitantemente e de encontro ao Estado.

Contra a pacificação, o fogo das revoltas anarquistas!

A luta antimanicomial deve ser antiautoritária e anticapitalista

“Um poder de tipo soberania é substituído por um poder que poderíamos dizer de disciplina, e cujo efeito não é em absoluto consagrar o poder de alguém, concentrar o poder num indivíduo visível e nomeado, mas produzir efeito apenas em seu alvo, no corpo e na pessoa do rei descoroado, que deve ser tornado ‘dócil e submisso’ por esse novo poder” -Foucault

“Porque passei pela prisão, eu compreendo as pessoas e os animais que estão doentes, pobres, que sofrem. Eu me identifico com eles. Sinto-me um deles.” -Nise da Silveira

 

A luta contra os manicômios, em sua radicalidade, se baseia na ideia de que a psiquiatria e outras profissões médicas da saúde mental são, em última instância, um sistema de controle social escondido atrás deo que seria, na melhor das hipóteses, chamado de pseudociência. Os protestos contra os sistemas de saúde mental datam pelo menos desde o século XVII, quando internos do hospital de Bethlem pediram à Câmara dos Lordes que intervisse por um tratamento mais humano. A luta antimanicomial se distingue dessa tradição devido ao seu radicalismo: ao invés de buscar modernizar a psiquiatria, diminuir seu poder, ou prevenir o abuso, o trabalho dos militantes coloca em cheque toda a hierarquia do poder psiquiátrico, inserindo-a em uma lógica anti-autoritária mais geral. No Brasil, a luta antimanicomial se institucionalizou com a política de saúde mental, álcool e outras drogas; o problema dessa institucionalização é que corre o risco de perder a radicalidade anti-autoritária, ficando vulnerável a alterações de política com a proposta pelo governo Bolsonaro.

 

Nau dos Insensatos-John Alexander.jpg

Continue reading “A luta antimanicomial deve ser antiautoritária e anticapitalista”

Capitalismo de vigilância e tecnopolíticas do desejo

O Grande Irmão encontra Helmholtz Watson

No clássico “1984”, George Orwell apresenta uma distopia em que os cidadãos estão sempre sendo vigiados pelo Grande Irmão. Em uma releitura imaginativa do que Foucault chamaria de “Panóptico“, os cidadãos de Oceania estão sob constante vigilância, ou comportam-se como tal. Assim, em uma sociedade disciplinar, a onipresença das tecnologias de vigilância fazem com que os indivíduos se auto-censurem, mesmo que ninguém esteja vendo as câmeras. Os indivíduos internalizam o Grande Irmão.

O filósofo francês Gilles Deleuze assinala a mudança das tecnologias de vigilância na transição da sociedade disciplinar para sociedade de controle. Na sociedade disciplinar, a ideia de vigilância remetia ao confinamento e à restrição do movimento físico dos indivíduos no espaço. Vigiar era olhar e regular os passos dos indivíduos. Na transição para a sociedade de controle, com a explosão das comunicações, vigiar é fuçar mensagens, interceptar, ouvir, interpretar. Da câmera passamos aos dados.

Em uma carta já famosa endereçada a Orwel, Aldous Huxley – o escritor de outra distopia famosa da ficção científica, “Admirável Mundo Novo” – apontava que achava sua visão do futuro – uma sociedade controlada por atratores de desejo, que esvaziam os desejos mais radicais e os transformam em seu contrário – mais provável do que a sociedade baseada na violência exposta por Orwell. “Ainda na próxima geração, acedito que os comandantes deste mundo descobrirão que o condicionamento infantil e a narco-hipnose são mais eficientes, como instrumentos de governo, do que clubes e prisões, e que a sede de poder pode ser tão completamente satisfeita sugerindo que as pessoas amem sua servidão quanto chicoteando-as e chutando-as para que obedeçam”

É profundamente irônico que o capitalismo contemporâneo tenha encontrado como solução um misto de Orwell e Huxley: o capitalismo de vigilância.

 

Capitalismo de vigilância

Deleuze nos lembra que enquanto a sociedade disciplinar se constitui de poderes transversais que se dissimulam através das instituições modernas e de estratégias de disciplina e confinamento, a sociedade de controle é caracterizada pela invisibilidade e pelo nomandismo que se expande junto às redes de informação. A passagem de uma sociedade disciplinar a uma sociedade de controle tem como estratégia fundamental esvaziar a imagem da sua virtualidade para a tornar pura informação, parte dos dispositivos de vigilância e monitorização. Ao atribuir à imagem a potencialidade da informação, deslocamos a abordagem do campo de representação, passando a compreendê-la enquanto a própria expressão dos acontecimentos.

As tecnopolíticas da sociedade de controle fazem com que os indivíduos tornem-se separados, distintos, divididos, cindidos: “Já não nos encontramos lidando com o par massa / indivíduo. Os indivíduos tornaram-se ‘dividuais’ e massas, amostras, dados, mercados ou ‘bancos’“.

Onde se encontra a vigilância nesse movimento? A acadêmica Shoshana Zuboff criou o termo “capitalismo de vigilância” para descrever a nova configuração do capitalismo que monetiza dados adquiridos por vigilância. Recentemente, foi revelado que a concessionária da linha amarela do metrô de São Paulo instalou portas interativas digitais nas estações Luz, Pinheiros e Paulista. Por causa disso, sem escolha, os indivíduos entregam dados pessoais no metrô de São Paulo diariamente: as portas filmam os rostos de passageiros e procuram adivinhar as emoções sentidas no momento. A ideia é que isso ajude a categorizar os usuários e o metrô possa exibir propagandas de maneira eficiente.

Zuboff contrapõe a vigilância estatal, que objetiva o controle dos indivíduos e a identificação de pessoas específicas – típico das sociedades disciplinares – à vigilância do capitalismo. A metáfora do Big Brother foi substituída pelo Big Other.

No capitalismo de vigilância, a vigilância constante de nossos pensamentos, desejos, e ações, principalmente na Internet, combinada com análise de algoritmos por inteligência artificial resulta na previsão e manipulação de nossos desejos para a concentração de poder e riqueza na mão de poucos. “Em seu cerne, o capitalismo de vigilância é parasita e auto-referencial. Revive a velha imagem de Karl Marx do capitalismo como um vampiro que se alimenta do trabalho, mas com uma guinada inesperada. Ao invés de se alimentar do trabalho, o capitalismo de vigilância de alimenta de todos os aspectos da experiência humana”. As ferramentas do capitalismo de vigilância – e não estamos falando só do Google e do Facebook, mas de uma lógica pervasiva que atravessa todas as nossas relações online e, cada vez mais, offline – nos dessensibiliza para a destruição progressiva da autonomia individual e coletiva, da liberdade de pensamento e ação, da privacidade, e da memória, ao mesmo tempo em que demanda que as corporações e a classe rica tenham direitos absolutos.

Anunciando o episódio de estréia do Fagulha Podcast

Saudações anarquistas!
O que é esse troço que vocês chamam de “anarquismo”? Ele sempre foi do mesmo jeito? Como surgiu, e onde está hoje? No episódio de estréia do Fagulha Podcast, Camarada Emma e Rei Plebe discutem um pouco a história inicial do movimento, e nosso convidado Acácio Augusto nos ajuda a compreender o anarquismo contemporâneo, suas pautas, e suas contribuições para as lutas da Esquerda radical.

 

Link para o episódio: https://fagulha.podbean.com/e/01-anarquismo-passado-e-presente/

 

Feed: https://feed.podbean.com/fagulha/feed.xml

 

Siga a gente nas redes
Página do Coletivo Planètes – https://coletivoponte.noblogs.org
Mastodon: @fagulhacast@anarchism.space
Twitter: @FagulhaP
Canal do Telegram – https://t.me/coletivoplanetes

Playlist do episódio
Escalier – Psicose 4-48
Zegota – Kosi Idina (So That Obstacles Are No More)
Colligere – O Poder do Pensamento Negativo – https://colligere.bandcamp.com/
La Plataforma – Guerra Civil – http://theplatform.nuevaradio.org/aud_MDL.htm
Point of No Return – Ponte
La Plataforma – No Pasarán – http://theplatform.nuevaradio.org/aud_MDL.htm

Textos para leitura
Acácio Augusto, “Anarquismo contemporâneo, pós-anarquismo, neoanarquismo… Para travar neologismos” – https://revistas.pucsp.br/index.php/ecopolitica/article/download/21729/16008
Acácio Augusto & Edson Passetti, “Anarquismos & Educação” – https://grupoautentica.com.br/autentica/livros/anarquismos-educacao/448
Alexandre Samis, “O Anarquismo de Proudhon a Malatesta” – https://we.riseup.net/assets/421832/o+anarquismo+de+proudhon+a+malatesta.pdf
Edgar Rodrigues, “Historia do movimento anarquista no Brasil” – https://we.riseup.net/assets/432533/historia+do+movimento+anarquista+no+brasil.pdf
Tadzio Mueller, “Poder, hegemonia e a estratégia anarquista” – https://coletivoponte.noblogs.org/post/2018/11/08/poder-hegemonia-e-a-estrategia-anarquista/

Links
Núcleo de Sociabilidade Libertária – Nu-Sol – https://www.nu-sol.org
Laboratório de Análise em Segurança Internacional e Tecnologias de Monitoramento – Lasintec – https://lasintec.milharal.org/