A recusa

(O texto abaixo foi publicado pelo grupo Inhabit. Reproduzimos nossa tradução para somar o debate sobre apoio mútuo e sobre o futuro do anarquismo).

A situação evolui tão rapidamente que até mesmo as últimas notícias estão de alguma forma desatualizadas. A velocidade da crise torna a análise impossível, a crítica mais insuficiente do que nunca – conceitos antigos desnudados por novas realidades. O que pode ser dito que não parecerá pitoresco até amanhã? É difícil pensar e agir nesse ritmo, mas é preciso tentar.

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Festivais Cruéis: Furio Jesi e a Crítica da Política da Autonomia

O texto a seguir é um artigo de Kieran Aarons, publicado na revista Theory & Event em Outubro de 2019, e disponibilizado pela ill will editions. Trata-se de uma análise de alguns conceitos de Furio Jesi sobre insurreição, mitologia, e revolução, e é uma crítica importante para o insurrecionalismo atual – para que não fique preso em “festivais cruéis”, sem conectar o tempo da insurreição a um projeto: o risco é, seguindo a metáfora de Aarons, que “[n]o final, os mitos tecnicizados propagados pela sociedade burguesa sobre o terreno ‘não contingente’ do seu poder derrotam-nos não só reforçando a nossa timidez e docilidade, mas também inflacionando-nos inconscientemente com poderes para além das nossas forças, tomando as nossas próprias virtudes contra nós, emparedando-nos num mundo fechado: um bloco negro numa caixa negra, incapaz de contar material e projetualmente com as suas condições históricas, e privado, portanto, dos meios para se prolongar.”

 

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[Zine] Grupos de afinidade: Blocos de montar para a organização anarquista

Grupos de afinidade: Blocos de montar para a organização anarquista

Após um longo tempo sem postar, compartilhamos com vocês o zine “Grupos de afinidade: Blocos de montar para a organização anarquista”, uma tradução do zine “How to form an affinity group”, do Coletivo de Ex-Trabalhadores CrimethInc. Compartilhamos aqui esse trabalho com vocês para que ele vá longe!

Grupos de afinidade: Blocos de montar para a organização anarquista

Uma leitura anarquista da interseccionalidade

A palavra “interseccionalidade” têm sido utilizada com frequência em meios de Esquerda, muitas vezes sem reflexão apropriada em relação aos seus significados, e sem uma relação real com a prática diária de construção de emancipações. Atestando à incrível capacidade de Recuperação/cooptação do Capitalismo contemporâneo, o termo é amplamente utilizado em vertentes liberais do feminismo para fazer referência a uma suposta equivalência das opressões. Esse conceito é, muitas vezes, utilizado de maneira superficial e errônea – acompanhando o apagamento do protagonismo de mulheres negras e trans, e uma definição vazia de lugar de fala que é compreendida como “só eu posso falar disso”, ao invés de uma leitura materialista dos marcadores sociais da diferença. Essa discussões emergem em um momento em que a Esquerda – inclusive os anarquistas – parecem mergulhados em um debate sem fim sobre “economicismo” vs. “identitarismo”. O que propomos aqui é um retorno à história do anarquismo – e, principalmente, do anarcafeminismo -, bem como a incorporação de conceitos e estratégias produzidas pelo anarquismo decolonial, para buscarmos a ressignificação (desvio?) do conceito de interseccionalidade.

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[Zine] Contra a pacificação, o fogo das revoltas anarquistas!

Estamos iniciando um projeto novo, divulgando zines e textos de compas e coletivos anarquistas e autonomistas, bem como criando nosso próprio material. Para inaugurar, o zine-livreto “Contra a pacificação, o fogo das revoltas anarquistas!”, do Matheus Marestoni, uma reflexão sobre os impactos das Revoltas de Junho no anarquismo insurrecionalista, ação direta, tática e estratégia anarquistas, e a tentativa do Estado e dos movimentos moderados de cooptar e pacificar as ruas.

[…] nota-se o combate ao princípio da autoridade. Esse combate norteia as ações diretas, que se configuram de diferentes maneiras com o passar dos anos. Contudo, concomitantemente a atualização das táticas de ação direta e a tentativa do Estado de suprimi-las também se atualiza. Não se pode deixar mencionar a atuação recorrente dos movimentos institucionais e partidos de esquerda no combate aos anarquistas, agindo concomitantemente e de encontro ao Estado.

Contra a pacificação, o fogo das revoltas anarquistas!

O 1º de Maio é anarquista!

Após a Guerra da Secessão nos EUA, algumas regiões daquele país passaram por um acelerado processo de industrialização que, assim como na primeira fase aqui no Brasil, se baseou na extensa exploração de mão de obra imigrante. Em Chicago, palco da Revolta de Haymarket, os operários tinham jornada de trabalho de pouco mais de 10 a até 17 horas por dia, trabalhando 6 dias por semana. Um extenso movimento de sindicalistas de intenção revolucionária foi se montando em lutas pela melhoria nas condições de trabalho. Os patrões, claro, agiram como patrões, e reagiram com medidas anti-sindicais e anti-solidariedade: demitiam e marcavam participantes; bloqueavam empregados; recrutavam fura-greves; contrataram espiões, criminosos, e segurança privada; e incitavam conflitos étnicos. Diversas organizações cresceram naquele momento; o movimento anarco-sindicalista de Chicago, composto por milhares de trabalhadores (na sua maioria imigrantes), centrava-se sobre o jornal de língua alemã “Arbeiter-Zeitung”, editado por August Spies.

O surgimento dessas organizações anarco-sindicalistas e de sindicalismo revolucionário também está relacionado ao que muitos percebiam como um esgotamento da estratégia eleitoral. Na segunda metade do século XIX, muitos socialistas foram eleitos para cargos em câmaras, mas não obtiveram nenhum sucesso pela via eleitoral. Centenas de socialistas, nos EUA, abandonaram seus partidos e rejeitaram a via eleitoral – tida como um meio para a proteção dos privilégios das classes ricas.

Em sua convenção nacional de 1884, em Chicago, a Federation of Organized Trades and Labor Unions proclamou a luta pela jornada de 8 horas como pauta central. Outros grupos reformistas, como os Knights of Labor, apoiaram a pauta, mas muitos anarquistas a consideravam amena demais. Mesmo assim, os anarco-sindicalistas de Chicago apoiaram os movimentos pela jornada de 8 horas. Em parte, isso reflete a posição sindicalista de intenção revolucionária de usar pautas reformistas para promover uma discussão mais ampla sobre trabalho, capitalismo, e revolução. A estratégia revolucionária se baseava na ideia de que operações bem sucedidas contra a polícia e a tomada dos meios de produção em centros industriais resultariam num apoio em massa dos trabalhadores, levando à revolução social. Na convenção de 1884, a Federation of Organized Trades and Labor Unions havia proclamado que, a partir de 1886, o 1º de Maio seria a data em que a jornada de 8 horas se tornaria padrão.

Quando a data se aproximou, sindicatos e organizações de trabalhadores chamaram uma greve geral. Um panfleto convocando para o ato em Chicago dizia:

-Trabalhadores às armas!
-Guerra ao Palácio, paz às choupanas, e Morte ao ÓCIO LUXURIOSO
-O sistema de salários é a causa única da miséria do Mundo. É apoiado pela classe rica, e, para destruí-lo, devemos forçá-los a trabalhar ou MORRER
-Uma libra de DINAMITE é melhor do que alqueire de URNAS
-FAÇA SUA DEMANDA DE 8 HS POR DIA com armas nas mãos para encarar os cães-de-guarda do Capital, a Polícia e as milícias, da maneira apropriada

Os anarquistas sabiam, por experiência própria, que os patrões e a Polícia jamais permitiriam que esse movimento avançasse. 10 anos antes, em uma greve de trabalhadores das ferrovias, a Polícia atirou contra os grevistas, ferindo centenas e matando dezenas. Mesmo Kropotkin, costumeiramente tido como pacifista, quando juntou-se aos anarquistas de Berna em uma marcha em 1877, levou socos-ingleses e outras armas para se defender da Polícia, e entrou em confronto nas ruas.

Em 1º de Maio de 1886, 300.000 pessoas saíram de seus postos de trabalho nos EUA, na primeira celebração do 1 de Maio na história operária. Em Chicago, 40.000 trabalhadores entraram em greve, aliando-se aos anarquistas, ouvindo discursos inflamados e se juntando em ação direta. Nos dias seguintes, os números aumentaram, mas a paz se manteve. Foi só no dia 3 de Maio de 1886 que os conflitos iniciaram, focados na McCormick Reaper Works. A polícia atacou os manifestantes, que responderam com pedras; a contra-resposta foi na base da bala. Pelo menos dois grevistas foram mortos, e o número de feridos é desconhecido.

Os anarco-sindicalistas convocaram uma reunião para o dia seguinte, 4 de Maio, no Haymarket Square, para discutir a brutalidade policial. O clima chuvoso diminuiu o número de participantes para 3.000. August Spies proferiu um discurso que o prefeito de Chicago, presente no local, diria depois não fazer nenhuma sugestão de violência. Os manifestantes estavam calmos e em ordem. Conforme o discurso ia acabando, dois detetives correram até onde estava a maioria dos policiais, dizendo que um dos oradores estava incitando os manifestantes contra a Polícia. A polícia começou a dispersar os manifestantes.

Uma bomba foi lançada contra a polícia. Ninguém sabe de onde veio a bomba.

Existem várias teorias sobre quem lançou a bomba. Alguns dizem ter sido um anarquista na multidão; outros, um agente provocador. Um policial morreu, e outros sete morreriam nos dias seguintes. Evidências posteriores sugeriram que esses sete foram vítimas das balas da própria polícia. Oito anarquistas – Albert Parsons, August Spies, Samuel Fielden, Oscar Neebe, Michael Schwab, George Engel, Adolph Fischer, e Louis Lingg – foram acusados de terem produzido e lançado a bomba, e foram presos. Desses, apenas três estavam em Haymarket no dia.

Um júri composto por patrões e seus representantes condenou Parsons, Spies, Engel, e Fisher à morte. Louis Lingg se matou na cadeia, no dia 10 de Novembro de 1887, em um ato final de rebelião, engolindo um artefato explosivo. No dia seguinte, Parsons, Spies, Engel, e Fisher foram enforcados. Nos anos seguintes, os patrões, o Estado, e a mídia organizaram uma campanha para associar o anarquismo à violência. A imagem do anarquista com uma bomba em uma mão e uma adaga em outra se formou ali, e o socialismo passou a ser considerado “anti-americano”.

No 20 de junho de 1889, a segunda Internacional Socialista, reunida em Paris, decidiu convocar anualmente uma manifestação com o objetivo de lutar pela jornada de 8 horas de trabalho. A data escolhida foi o primeiro dia de maio, como homenagem às lutas sindicais de Chicago. Em 1º de maio de 1891, uma manifestação no norte de França foi dispersada pela polícia, resultando na morte de dez manifestantes. No mesmo ano, Errico Malatesta retornou para a Itália e organizou uma manifestação em memória aos Mártires de Haymarket. Milhares de anarquistas se juntaram às manifestações; o chefe de polícia diria que “a chegada da Federazione Anarchica estimulou imediatamente a excitação da massa”. Galileo Palla, que havia sido exilado com Malatesta na Argentina, tomou o palanque naquela tarde e incitou a multidão a se revoltar, proferindo “lunga vita alla rivoluzione”. Os confrontos com a polícia se estenderiam por toda a noite e por toda a cidade de Roma.

A história do 1º de Maio é também uma história de disputa de narrativas. Em 1894, em Cleveland, o prefeito decretou um feriado, em uma tentativa de esvaziar a luta. O presidente da AFL, um sindicato pelego, apoiou a iniciativa. Durante a década de 1890, diversas tentativas ocorreriam de organizar atos do 1º de Maio no Brasil, quase sempre frustradas ou reprimidas por prisões. Por aqui o Estado rapidamente tentou esvaziar o 1º de Maio em sua radicalidade: em 1902, um projeto foi enviado para a Câmara dos Deputados que tornaria o 1 de Maio feriado nacional. O discurso da imprensa muda imediatamente; publicou-se no Diário da Tarde, de Curitiba, em 1902:

Cônscios de que representavam uma força poderosa, procuraram os operários unir-se, congregar-se sob a égide brilhante do amor e da paz, e, qual novos cruzados, caminham desassombradamente à conquista da Jerusalém do futuro. Para as almas exaustas de sofrimento, a esperança é o bálsamo suavizador por excelência. Aí esse anseio, esta alegria sã, que emana de todos os corações, no dia de hoje, florescidos como uma promessa de um futuro de absoluta justiça

No começo do século XX, antes do boom do anarco-sindicalismo brasileiro, ocorreram “cortejos operários” no 1º de Maio. Esses cortejos eram animados por bandas de música, com queima de fogos de artifício, o que conferia um ar festivo às comemorações operárias. Os anarquistas fariam críticas ferrenhas a esses movimentos, por considerarem que esvaziavam o aspecto de luta do 1º de Maio – prefigurando os sorteios de carro e comícios organizados pelas centrais sindicais nas décadas de 1980 e 1990. Na edição 15 do jornal anarquista “A Greve”, comentando o 1º de Maio de 1902 no RJ, lê-se: “regozijou a imprensa burguesa com o fato dos festejos do primeiro de maio assumirem um caráter francamente carnavalesco, e felicitou o operariado desta cidade por ter solenizado a significativa data de maneira tão ridícula e deprimente. Confrangeu-nos o coração vermos tantos homens servirem de instrumentos inconscientes a uma detestável mascarada”.

Até que nossas exigências mais fantásticas sejam satisfeitas, a fantasia sempre estará em guerra com a realidade

Ela sequestra aulas de história e funerais, arma emboscadas para secretárias no caminho para a máquina de café, transforma trilhos em tobogãs e shopping centers em parquinhos — ela deixa a vida girando fora de controle. Diretores de cinema tentam aproveitá-la, agentes de viagens tentam vendê-la, partidos políticos tentam recrutá-la; mas a fantasia, assim como aqueles que a buscam sinceramente, não serve a
nenhum senhor.

Agora que todos os continentes foram conquistados e todas as terras exploradas, nada é mais precioso do que passagens para novos mundos. Fés produzidas em massa são assombradas por milhares de sonhos de fuga — e a ilusão tece melhores asas para a juventude ansiosa por voar do que o pragmatismo jamais ofereceu aos nossos ancestrais.

Como revolucionários, é claro que estamos lutando pelos nossos sonhos! Quando não podemos aguentar mais uma hora disto, tomamos o partido dos momentos em que surpreendemos a nós mesmo, dos lampejos em que tudo parece possível, experiências intensas que podem durar só alguns instantes — e portanto de todo impulso reprimido, prazer proibido, sonho inexplorado, todas as canções sufocadas que, livres, poderiam criar uma reviravolta jamais vista. E depois, quando a poeira assentar, vamos tomar o seu partido de novo.

Chame isto de escapista — talvez seja; mas que tipo de pessoa é mais assombrado pela ideia de escapar? Prisioneiros. Certo ou errado, egoísta ou generoso, possível ou impossível, nós vamos sair daqui.

O convite a um novo mundo pode levar uma vida ou mais para se estender; o status autoimposto de excluídos pode ser estabelecido de forma a receber as transmissões, para dar o solo no qual as sementes possam brotar. Aquele que fizer isso não está se arremessando da vida no final das contas, mas dando a ela uma porta de entrada — silenciosamente metabolizando o lixo do velho mundo para o novo, assim como outros “parasitas” fazem.

Alguma vez já reclamamos de sermos malcompreendidos, injustiçados ou ignorados? Esse destino é o que nos diferencia: nós não nos levaríamos suficientemente a sério se desejássemos que fosse de outro modo. Tudo o que é grandioso acontece longe do mercado e da fama; inventores de novos valores e arquitetos de novos paradigmas sempre se esconderam nas margens, passaram fome nos guetos, agiram nas sombras. Ainda não há espaço nas ruas ou nos jornais para os pacotes que temos para entregar.

Mas cuidado — se não forem postas em prática, as fantasias podem se
tornar vampiros que sugam a vida de seus hospedeiros; elas podem um dia servir a outros, mas elas só podem contribuir para a submissão
daqueles que nunca ousaram realizá-las.

Espere resistencia