Avaliando as habilidades que você pode trazer para o apoio mútuo

Texto traduzido do zine You Have Skills: Evaluating What Skills You Can Bring to Radical Organizing

É muito fácil, quando se olha para o panorama geral do trabalho de base, não saber por onde começar ou como ajudar. A situação pode se tornar debilitante e paralisante. E eu, como alguém com ansiedade, sem dúvida olho para o quadro geral às vezes e não sei o que fazer ou como ajudar e acabo ficando paralisado. Às vezes eu não ajudo porque não sei para onde ir.

Parte de se sentir confortável em ajudar, ser voluntário e trabalhar em solidariedade com as pessoas é saber como se pode contribuir. Vamos falar sobre diferentes formas de olhar para suas habilidades para que você saiba exatamente como você pode ajudar. Com a combinação de conhecer suas habilidades e conhecer seus limites, você pode consentir plenamente, com entusiasmo, com o que quer que você esteja se candidatando.

Nem todo trabalho de base é intenso ou glamouroso. As habilidades vêm de lugares surpreendentes. Você pode nem mesmo perceber que tem habilidades que podem ser usadas para a organização de ajuda mútua. Muitas vezes, pensamos que apenas habilidades específicas são usadas na organização de ajuda mútua. Este não é necessariamente o caso. Precisamos de mais do que apenas oradores de manifestações, facilitadores de reuniões e produtores de panfletos.

Antes de mais nada, o que você acha – assim, de cabeça – que você faz bem? Do que você se orgulha, que você sabe que faz bem? Qual é sua maneira ideal de ajudar amigues ou organizações?

Se você estivesse imaginando que havia um projeto acontecendo em sua área, pense em 30 minutos ideais de voluntariado; como seria isso? Estaria ajudando a acolher as pessoas conforme elas entram? Dando um treinamento? Inscrevendo pessoas? Cozinhando em uma cozinha? Estaria distribuindo panfletos? Estaria gritando na cara de um fascista? Imagine fazendo o que se sentiria mais confortável dentro de um grupo.

Você pode olhar para as habilidades que você usa no seu trabalho. Quais ferramentas você utiliza? Você sabe como manejar equipamentos de construção e construir? Você trabalha em um computador e pode organizar planilhas? Você lida com atendimento ao cliente e vendas? Você tem habilidades interpessoais como resolução de conflitos, treinamento, coordenação, equipe, organização de equipes, delegação ou pesquisa? O que são coisas que você colocaria em seu currículo? Eu posso te garantir que quase tudo que eu tenho no meu currículo, eu poderia definitivamente usar como ferramenta para organização de apoio mútuo.

Eu poderia colocar minhas habilidades de escrita em informações em um site. Eu poderia usar meu conhecimento em design gráfico para fazer posters. Eu poderia criar formulários online. Poderia organizar teleconferências. Há muitas coisas diferentes que podemos usar de nossos currículos que também podem ir para a organização de ajuda mútua. Saber que você tem essas habilidades na reserva é realmente importante.

Para aqueles que estão na escola, ou saíram da escola recentemente, de que habilidades você se lembra? Que técnicas você aprendeu? Aposto que houve pesquisa! E a escrita? Lidar com a autoridade? Aprender como trabalhar com professores para descobrir suas expectativas pode ser facilmente aplicado para descobrir as expectativas dos outros que você vai encontrar na organização.

Projetos em grupo? Palestras? Houve competências específicas que você aprendeu em suas aulas que eles lhe ensinaram? Você teve ensino técnico onde aprendeu coisas que poderiam ser aplicadas em uma variedade de situações?

Você pode analisar quais hobbies você tem. Quais de suas habilidades de seus hobbies podem ser aplicadas? Você cozinha? Você sabe construir coisas? Você gosta de escrever? Você gosta de fazer música? Você é grande apreciador de sobrevivência ao ar livre? Há tantas coisas que costumamos fazer no nosso tempo livre, que temos muita satisfação de fazer, que não são comoditizadas sob o capitalismo, mas ainda são habilidades muito valiosas quando estamos trabalhando em comunidade com outros.

Não se esqueça de analisar o que os outros lhe dizem que você é competente. Se você está falando com amigos ou colegas de trabalho e alguém comenta, “você é muito bom em explicar as coisas”, ou “você é muito bom em achar essas perguntas detalhadas”, ou “você é muito bom em mobilizar uma multidão”. Muitas vezes nós não olhamos para nós mesmos da mesma forma que as pessoas ao nosso redor nos veem. Às vezes os outros podem ser um recurso muito bom para descobrir no que você é bom.

Há coisas que você se voluntaria para fazer dentro da sua dinâmica familiar ou de amigos? Se você está fazendo planos para uma reunião, férias ou festa com sua família ou amigos, há algo que você costuma trazer à tona? Você é a pessoa que elabora o cardápio e coordena a comida? Você é a pessoa que gosta de reservar os voos? Ou a pessoa que gosta de descobrir as atrações e atividades? Você é a pessoa que realmente é ótima em levantar o ânimo de todos e deixar todos entusiasmados? Essas são coisas que você pode trazer para a organização de ajuda mútua.

Que habilidades você aprendeu ou usou com sua família? Muitas pessoas subestimam muitas das habilidades que desenvolvemos dentro de situações familiares, especialmente para pessoas que foram identificadas como do sexo feminino em sua infância. Há muitas habilidades que aprendemos, no gerenciamento da dinâmica familiar, na cozinha, limpeza, costura ou artesanato que podem ser facilmente aplicadas. Se essas são coisas que você gosta, você desfruta, e você tem cultivado uma competência, sem dúvida traga isso para a organização.

Quando você vê um projeto que você quer apoiar, é um realmente ótima ideia pensar sobre essas habilidades. É bom já ter avaliado suas capacidades para que você esteja ciente, então quando surge uma oportunidade organizacional, você pode entrar e dizer, eu tenho esta lista de habilidades, onde posso aplicá-las para ajudar com este movimento? Onde posso usar minhas habilidades de redação técnica? Onde posso usar minhas habilidades de jardinagem? Onde posso usar minhas habilidades de construção de equipes? Dessa forma você se encaixa nos mecanismos que já estão em funcionamento. Então você sabe, ei, eu vou ser voluntário para algo que eu já sei que sei fazer, e isso ajuda a todos. Você é capaz de fazer algo em que você esteja confiante, que você não vai sentir que vai estragar tudo, o que significa que você está mais propenso a se voluntariar, para começar. Isso também dá direção para outras pessoas porque elas são capazes de ver como as suas habilidades são aplicáveis e como isso pode se propagar pela comunidade.

Em conclusão, eu acho uma ótima idéia, mesmo que você esteja totalmente sozinho, no meio do nada, apenas fazer um inventário das habilidades que você tem. Quando a oportunidade bater, você terá uma lista definida que você possa usar e poderá dizer “ei, eu sou muito bom nisso. Deixe-me ajudá-lo” ou ” ei, eu posso fazer A, B, e C, mas não realmente D, E, ou F, onde eu posso me encaixar nesta cena?”

Isso dá muito mais rumo aos organizadores existentes do que alguém que vem e diz: “Eu quero ser voluntário”. Embora isso seja sempre apreciado, quando alguém sabe o que pode fazer e como pode contribuir, isso realmente ajuda.

Se estamos realmente hesitantes, nervosos, ou se sentimos que estamos fazendo algo mais por obrigação do que consentimos com entusiasmo, então realmente não damos o nosso melhor, e não nos sentimos o mais seguros que poderíamos estar.

No final das contas, precisamos construir essas relações revolucionárias uns com os outros como camaradas. Parte disso é entender o que você pode oferecer como você mesmo, para que outras pessoas não tenham que te pressionar; para que todos nós possamos nos sentir seguros e em comunidade juntos.


Checklist de habilidades transferíveis
Habilidades interpessoais

Interagir com sucesso com uma variedade de pessoas; sabe interpretar e usar linguagem corporal

Habilidades de comunicação oral

Apresentar informações e ideias de maneira clara e concisa, com conteúdo e estilo apropriados para a audiência (um-a-um ou em grupo); apresentar opiniões e ideias de maneira aberta e objetiva

Habilidades de falar em público

Fazer apresentações formais, apresentar ideias, posições, e problemas de maneira interessante

Habilidades de aconselhamento

Responder aos que os outros dizem sem julgar (“escuta ativa”); construir confiança e abertura com os outros

Habilidades de mentoria

Dar feedback de maneira construtiva; ajudar outros a melhorar seus conhecimentos e habilidades

Habilidades de ensino

Ajudar os outros a ganhar conhecimentos e habilidades; habilidades para criar ambientes de aprendizagem efetivos

Habilidades de supervisão

Delegar responsabilidades e estabelecer um sistema apropriado de responsabilidades; capaz de monitorar o progresso e avaliar a qualidade do trabalho e o desempenho dos outros

Habilidades de liderança

Motivar e empoderar os outros a agir; inspirar confiança e respeito nos outros.

Habilidades de persuasão

Comunicar efetivamente para justificar uma posição ou influenciar uma decisão; capaz de vender produtos ou promover ideias

Habilidades de mediação

Resolver conflitos que surgem de diferentes perspectivas ou interesses; capaz de lidar com conflitos de maneira aberta, honesta, e positiva

Habilidades de entrevista

Fazer e responder perguntas de maneira efetiva; capaz de fazer os outros se sentirem relaxados e criar um sentimento de confiança

Habilidades de atendimento de clientes

Construir uma relação de confiança mútua com clientes; capaz de administrar queixas e preocupações de maneira sensível

Habilidades de cuidado

Empatizar com os outros; capaz de oferecer cuidado sensível às pessoas que estão doentes, ou a idosos, ou pessoas que tem deficiências severas

Habilidades de pensamento lógico / analítico

Chegar a conclusões específicas a partir de um conjunto de observações gerais ou de um conjunto de fatos específicos; capaz de sintetizar informações e ideias

Habilidades de pensamento crítico

Revisar pontos de vista ou ideias diferentes e fazer julgamentos objetivos; investigar todas as soluções possíveis para um problema, pesando os prós e contras

Habilidades de pensamento criativo

Gerar novas ideias, inventar novas coisas, criar novas imagens ou designs; encontrar novas soluções para problemas; capaz de usar perspicácia oou humor de maneira efetiva

Habilidades de solução de problemas

Clarificar a natureza de um problema, avaliar alternativas, propor soluções viáveis, e determinar o desfecho de diferentes opções

Habilidades de tomada de decisão

Identificar todas as opções possíveis, pesar os prós e contras, avaliar a viabilidade e escolher a opção mais viável

Habilidades de planejamento

Planejar projetos, eventos, e progamas; capaz de estabelecer objetivos e necessidades, avaliar opções, e escolher a melhor opção

Habilidades de organização

Organizar informação, pessoas, ou coisas de maneira sistemática; capaz de estabelecer prioridades e respeitar prazos

Habilidades avançadas de escrita

Selecionar, interpretar, organizar, e sintetizar ideias-chave; capaz de editar um texto escrito para certificar-se de que a mensagem é o mais clara, concisa, e precisa possível

Habilidades de pesquisa

Saber como encontrar e coletar informações relevantes; capaz de sintetizar e analisar dados, sumarizar achados, e escrever um relatório

Habilidades financeiras

Manter registros financeiros precisos; capaz de administrar um orçamento (ou seja, preparar orçamentos sensatos e monitorar gastos)

Habilidades de linguagem

Funcionalmente bilíngue; traduzir e/ou interpretar algum idioma

Habilidades avançadas de computação

Usar uma variedade de programas de computador; conhecimento sobre editoração eletrônica e/ou web-design

Habilidades tecnológicas

Entender sistemas técnicos e operar efetivamente com esses sistemas; entender especificações técnicas; ler manuais técnicos com facilidade

Habilidades performáticas

Fazer presentações de vídeo e televisão de maneira interessante; capaz de entreter, divertir, e inspirar uma audiência

Habilidades artísticas

Usar cor e desenho criativamente; capaz de desenhar materiais visuais e de publicidade (impressões, vídeo, Internet)

Habilidades mecânicas

Instalar, operar, e monitorar o desempenho dos equipamentos e dispositivos mecânicos; capaz de reparar dispositivos mecânicos

Habilidades de adaptabilidade

Adaptar-se a novas situações e contextos para tolerar a mudança; flexibilidade para se adaptar às necessidades do momento

Habilidades administrativas e de escritório

Operar computadores e outros equipamentos básicos de escritório; desenhar e manter sistemas de arquivamento e controle

   

 

Introdução ao apoio mútuo

 

Na prática do apoio mútuo, que remonta aos primeiros passos da evolução, encontramos a origem evidente e indubitável de nossas concepções éticas; e podemos afirmar que, no progresso ético do homem, o apoio mútuo — e não a luta de uns contra os outros — tem o papel principal. Em seu avanço, mesmo no momento presente, vemos também a melhor garantia de uma evolução ainda mais grandiosa de nossa espécie.

Pyotr Kropotkin, “Apoio mútuo: Um fator da evolução”

No pensamento Akan, do sul de Gana, a comunidade é representada por um “crocodilo siamês” com duas cabeças, mas apenas um estômago. O estômago comum dos dois crocodilos indica que os interesses básicos de todos os membros da comunidade são idênticos. Portanto, pode ser interpretado como simbolizando o bem comum, o bem de todos os indivíduos dentro de uma sociedade.

FUNTUNFUNEFU-DENKYEMFUNEFU

No pensamento Akan, o bem comum não é um substituto para a soma dos vários bens individuais. Ele não consiste ou deriva dos bens e preferências de determinados indivíduos. Existe um provérbio Akan que diz: Obra ye nnoboa. Nnoboa significa “ajudar uns aos outros a trabalhar na fazenda”. Nas comunidades rurais de Gana, quando um agricultor percebe que o trabalho na fazenda não pode ser concluído dentro de um certo tempo se ele o fizesse sozinho, ele solicita a ajuda e o apoio de outros agricultores da comunidade. Os outros agricultores prontamente ajudam a esse agricultor, que, desta forma, completa sua produção dentro do prazo. O mesmo pedido seria, quando necessário, feito pelos outros fazendeiros em diferentes ocasiões.

Assim, obra ye nnoboa significa a vida é apoio mútuo.

Na nossa sociedade contemporânea, esse valor parece ter sido perdido. Estamos cada vez mais em-si-mesmados, atomizados, presos em nossos universos particulares. “Se os homens se
transformaram em escorpiões que picam a si mesmos e aos outros, não será afinal
porque nada aconteceu e os seres humanos de olhos vagos e cérebro murcho se
tornaram misteriosamente sombras de homens, fantasmas de homens, e até certo ponto,
nada mais têm de homens além do nome?” (Raoul Vaneigem, “A Arte de Viver para as Novas Gerações”). Nessa sociedade em que estamos isolados, encontrar uns aos outros e compartilhar uma vida diferente é algo revolucionário:

“Fomos criados em uma cultura de isolamento e derrota, onde nosso potencial é reduzido para atender às demandas da economia. Enterrados sob nossas próprias preocupações pessoais, nossas próprias contas e nossos próprios medos, somos obrigados a olhar apenas par anós mesmos. Mas somos capazes de uma vida diferente.

Para começar, elimine o isolamento. Corte as besteiras. Volte-se para as pessoas mais próximas e diga que precisa de uma vida em comum. Pergunte como seria enfrentar o mundo juntos. O que você tem? O que você precisa? Faça um inventário de suas habilidades, capacidades e conexõe scoletivas. Tome decisões que aumentem sua força. Estabeleça a base para uma vida em comum” – Inhabit, “Habitar: Instruções para a autonomia”

Para superar a crise e construir o futuro, um outro fim do mundo, precisamos fortalecer as resistências da vida cotidiana: essas ações que tomam lugar fora das organizações oficiais da política (partidos, sindicatos, grupos religiosos, grupos de base, etc.) e do olhar do Estado, e que mostram que existem muitas formas de vida além dessas formas organizacionais que expressam a potência coletiva. Alguns chamam a essas resistências de “o Comum”. Os autonomistas chamam de “auto-atividade” ou “auto-valorização”. Os anarco-comunistas identificam-nas com o apoio mútuo.

 

O que é apoio mútuo?

Apoio mútuo é um termo que quer dizer o intercâmbio recíproco de recursos e ações de ajuda para o benefício mútuo daqueles envolvidos no processo. É, portanto, uma forma de participação (anti)política na qual as pessoas assumem a responsabilidade por cuidar umas das outras e por mudar as condições políticas sem intermediários, sem algum vereador ou assessor ditando os rumos da mudança. Um outro nome para apoio mútuo, solidariedade, foi tão banalizado pelas igrejas e pelas grandes empresas que até perdeu seu sentido, mas implica em mutualidade:

“Ações de solidariedade são um meio de trazer amizades em potencial à existência, e tornando o mundo um lugar melhor no processo. Pois afinal, amigos nunca são demais, especialmente se você vive sob a ameaça da repressão estatal. Se você quer fugir do sistema de competição, no qual as pessoas só prosperam à medida que fazem os outros sofrer, a sua vida vai depender das redes de amizade e ajuda mútua — e não existe maneira mais rápida para fazer amigos do que ajudar os outros. Cada um de nós tem um tipo de recurso que pode ser compartilhado — o que você tem que as outras pessoas precisam?” – Crimethinc., “Receitas para o Desastre”

Ainda que, historicamente, o apoio mútuo seja associado aos anarquistas (taí a citação de abertura desse capítulo que não nos deixa mentir), o próprio Kropotkin sustentou sua tese do “valor adaptativo” do apoio mútuo através da observação cuidadosa de comunidades de “selvagens” – o termo usado pelo pensamento colonialista do século XIX para se referir às formas-de-vida não-européias. Assim, Kropotkin reconhecia que o apoio mútuo não era uma invenção do anarco-comunismo, nem que era baseada na independência autônoma do Estado ou nos direitos dos trabalhadores. É claro que o apoio mútuo incorpora autonomia proletária e as estratégias do anarco-comunismo, mas não podemos esquecer que o apoio mútuo é e sempre será uma tradição não-ocidental. O apoio mútuo é a forma de vida indígena, autóctone; é o poder e a vitalidade preta, que sobreviverá à teoria anarco-comunista. Apoio mútuo não é uma teoria. É uma prática que as pessoas não-brancas têm praticado desde antes que suas comunidades fossem devassadas pelo colonialismo e pelo capitalismo.

 

Apoio mútuo não é caridade

É preciso ter cuidado com duas coisas quando se faz grupos de apoio mútuo: a cooptação pelas estruturas de poder, e o Complexo do Branco Salvador.

Não podemos permitir que o apoio mútuo seja cooptado por organizações sem fins lucrativos, brancos querendo subir o morro, ou outras pessoas “caridosas” que não se comprometem com um entendimento do apoio mútuo como uma prática realizada por indígenas, pretos, e amarelos há muito tempo. Claro, em uma sociedade fraturada e que caminha a passos largos para a destruição, o apoio mútuo é uma maneira de sobreviver, mas seu objetivo, nas comunidades tradicionais, sempre foi o de fazer a comunidade PROSPERAR. Pense nos Akan do sul de Gana: a cobra siamesa não representa a mera soma das individualidades, mas o bem comum, que é algo mais. Diferente da caridade, o apoio mútuo deve ser um compromisso em fazer com que as pessoas prosperem, não somente que sobrevivam.

É claro que, em tempos de crise e pandemia, aqueles que têm acesso a recursos, dinheiro, empregos estáveis, e um teto sobre suas cabeças vão oferecer essas coisas sob o nome de “apoio mútuo”. A não ser que essas pessoas estejam prontas para se comprometer com objetivos de longo prazo que vão além da crise atual, o que estão fazendo é caridade, ou o Complexo do Branco Salvador. O escritor nigeriano-americano Teju Cole escreveu sobre isso: “O Complexo Industrial do Branco Salvador não tem a ver com justiça. Trata-se de uma grande experiência emocional que legitima o privilégio”. E ainda: “O branco salvador apoia políticas brutais de manhã, funda instituições de solidariedade social à tarde e recebe galardões à noite.”

Não é que não existam pessoas bem-intencionadas que procuram nossas comunidades querendo nos apoiar. Mas essas pessoas devem ser responsabilizadas por não exercerem o apoio mútuo além de uma situação de emergência. Essas pessoas devem usar seu tempo, dinheiro, recursos, e privilégio para educar os outros sobre como e por que o apoio mútuo é um compromisso com a comunidade. Se você tem acesso a todos esses recursos, ótimo! Mas não ache que doar algum dinheiro em uma vakinha, ou fazer as compras para uma senhorinha uma ou duas vezes durante a pandemia é fazer apoio mútuo.

Lembre-se: o apoio mútuo representa um compromisso de longo prazo baseado em resultados viáveis que leva a comunidade para além de sua dependência do Estado capitalista e colonizador.

 

O apoio mútuo deve ter potencial transformador

Cada grupo de apoio mútuo terá seu conjunto de valores compartilhados, aquilo no qual acreditam e apóiam. Mas algumas coisas são importantes de serem pensadas a todo momento, e há um conjunto mínimo de valores que não pode se perder de vista!

Se o apoio mútuo é uma forma de quebrar o binômio dos que tem e dos que não tem, fica claro que ele precisa ser horizontal e participativo. Do contrário, é caridade, uma forma de amaciar os egos mais do que de produzir apoio e solidariedade reais. Participar é ser capaz de fazer propostas, tomar decisões, e repartir responsabilidades para concretizar uma ação não-mediada. O apoio mútuo, como experiência de um novo projeto de sociedade, é acima de tudo uma escola de participação (anti)política. Assim, o apoio mútuo é uma prática multiplicadora que se sustenta quando busca:

  • Despertar a autonomia das pessoas, a confiança em seu potencial coletivo, ajudando-as a construir as capacidades de que necessitam para resolver suas demandas e as de seus aliados;
  • Anunciar a autonomia, a liberdade, e o apoio mútuo como opostos à ganância, à competição, e à exploração capitalista, ao poder e à dominação;
  • Canalizar a rebeldia popular contra a injustiça e pré-figurar, na própria ação de apoio mútuo, uma sociedade livre, em que a produção e a reprodução sociais sejam orientadas pela lógica da dádiva, do jogo, e do amor;
  • Transformar a realidade das pessoas envolvidas no apoio mútuo, com conquistas em todos os campos e dimensões da vida.

Uma consequência fundamental da ideia de que o apoio mútuo deve ter potencial transformador é que apoio mútuo significa criar um compromisso de longo prazo com a comunidade. O apoio mútuo é baseado no controle pela comunidade, com os indivíduos ajudando uns aos outros a se libertar da opressão do capitalismo e da autoridade. Apesar da caridade e do realocamento temporário de recursos serem aspectos importantes do apoio mútuo em momentos de emergência, não é algo central ao método. Para tomar emprestada uma metáfora já bem gasta, apoio mútuo não é só dar o peixe, mas também ensinar a pescar e, eventualmente, a imaginar novos mundos.

Apoio emocional autônomo e saúde mental pré-figurativa: Alguns materiais para ativistas

No contexto atual, de pandemia e escalada brutal do fascismo, torna-se transparente o caráter biopolítico dos afetos. Muitas vezes, a luta libertária produz uma carga emocional sobre aqueles que se engajam nela, de maneira que eventualmente nossa revolta se transvalora em afetos tristes e ressentimento. Criar uma cultura do cuidado entre anarquistas e aliades é fundamental para evitar isso, para criar condições para o apoio mútuo, para pensar uma saúde mental pré-figurativa, e para desmantelar divisões tradicionais entre trabalho ativista e trabalho afetivo.

Pensando nisso, traduzimos alguns materiais que podem ajudar singularidades ou pessoas que estejam engajadas em grupos de afinidade a desacelerar e lidar com situações estressantes. Esses materiais foram traduzidos e adaptados de diferentes fontes, e podem ser compartilhados livremente.

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