Iniciando um grupo de apoio mútuo

(Esse texto é uma tradução e adaptação de https://aarpcommunityconnections.org/start-group)

 

Os grupos de apoio mútuo são grupos informais de voluntários que ajudam a comunidade a se conectar durante períodos de crise, garantindo que ninguém tenha que enfrentar a crise por si só. Isso inclui ajuda para uma série de coisas, desde fazer compras para a vizinhança até checar se todes estão saudáveis. Esse guia vai te ajudar a criar um grupo de apoio mútuo e a pensar como apoiar as ações da sua comunidade.

 

1. Encontrando pessoas para ajudar

Talvez alguns de vocês já estejam organizades em grupos. Um grupo de afinidade é um sistema que pode ser aplicado como sustentação para redes de apoio mútuo sem nenhuma dificuldade.

Você e seus amigos já constituem um grupo de afinidade, o bloco deconstrução essencial desse modelo. Um grupo de afinidade é um cír-culo de amigos que se entendem como uma força política autônoma. Aideia é que as pessoas que já conhecem e confiam umas nas outras traba-lhem juntas para responder de forma imediata, inteligente e flexível asituações emergentes

“Grupos de afinidade: Blocos de montar da organização anarquista”: CrimethInc / Coletivo Planètes

Se esse não for o caso, identifique companheiras e companheiros que possam ajudar com o trabalho. Ajudar a organizar um grupo de apoio mútuo é muito mais fácil e divertido se você tiver a ajuda de outras pessoas, que podem te ajudar a iniciar o grupo, a ter ideias interessantes, a conseguir recursos, e a formar novas relações.

Para identificar as pessoas que podem te ajudar, pergunte-se:

  • Quais são as pessoas que conheço em minha vizinhança, comunidade, prédio, ou quadra?
  • Quais são as pessoas que conheço que tem habilidades ou recursos importantes e úteis para começar esse grupo (p. ex., administração de dinheiro, facilidade com tecnologia, acesso a um veículo)?

 

2. Iniciando o planejamento

Trabalhe com compas para estabelecer algumas coisas básicas:

1) Determine o foco do seu grupo

  • Quem são as pessoas que vocês querem apoiar?
  • Comece com um grupo pequeno; de 5 a 15 pessoas é ideal.
  • Foquem-se no seu bloco, quarteirão, vizinhança, ou até mesmo no prédio em que mora.
  • Equilibre sua capacidade física e emocional para conseguir maximizar o seu impacto. Vocês sempre podem expandir as atividades uma vez que as coisas estejam andando, não se preocupe em “começar grande”.

2) Avalie necessidades e recursos em potencial

Tente descobrir como as pessoas na sua comunidade estão sendo impactadas pela crise que estão passando. Do que as pessoas precisam? O que as outras pessoas podem oferecer? Esses tipos de pergunta ajudam o grupo a identificar a melhor forma de apoiar uns aos outros, e são uma boa oportunidade de construir relações. Outras perguntas importantes para considerar:

  • Quem vive na sua comunidade? Como essas pessoas estão sendo impactadas pela crise atual?
  • Com o que as pessoas estão sofrendo? De que apoio precisam?
  • Que recursos as pessoas tem a oferecer?
  • Quem está interessado em entrar no grupo?

 

3. Crie o seu grupo

Desenvolva um “núcleo duro”. Você pode precisar de algumas pessoas que trabalhem mais do que as outras, ou que tenham algumas habilidades específicas. As afinidades são a fundação do apoio mútuo, então lembre-se que todo mundo está sendo impactado pela crise, e cada um tem uma experiência diferente. Você pode se perguntar: “como esse núcleo duro pode apoiar-se, ao mesmo tempo em que apóia às outras pessoas?”

Estabeleça acordos da comunidade. Os acordos ajudam os grupos a criarem uma forte cultura de trabalho coletivo, de manter a segurança de todes, e de respeitar a todes. Pergunte ao grupo: “De que maneira queremos trabalhar coletivamente? O que é importante para cada pessoa que ajuda a construir esse grupo?”

Determine papéis. Os papéis garantem que todo mundo tenha clareza de como podem contribuir. Distribuir tarefas importantes por todo o grupo ajuda todes a sentirem-se parte importante da equipe. Sugerimos considerar pessoas para os seguintes papéis:

  • Coordenadores: Conduzem as reuniões, gerenciam a comunicação dentro do grupo, asseguram que todo o grupo está trabalhando em conjunto.
  • Comunicação: Coordenam a divulgação e a comunicação, tais como a postagem de panfletos, a criação de posts nas mídias sociais, a ligação para os vizinhos.
  • Voluntários: Um grupo mais amplo de pessoas que oferecem serviços e apoio.
  • Logística: Reúnem e distribuem materiais. Ajudam no atendimento das demandas tecnológicas.

 

4. Crie um sistema de apoio

Escolha uma forma de se comunicar. Manter a comunicação regular com o grupo interno é importante. Decidam a(s) plataforma(s) que melhor se ajustam às necessidades do seu grupo. Cada serviço tem suas vantagens e desvantagens, e você pode se perguntar: com quais ferramentas as pessoas do meu grupo estão familiarizadas? Quais plataformas vão nos ajudar mais a fazer o trabalho?

Plataformas possíveis: Grupo de Facebook, Google Docs, Google Group, Slack, pads, mensageiros.
Criar um sistema para atender às necessidades e solicitações com ofertas de suporte. Essas são algumas formas de fazer isso:

  • Crie um grupo do Facebook ou website simples.
  • Crie um formulário de solicitação de assistência e voluntários.
  • Use um número de telefone (“hotline”) para que as pessoas possam ligar ou deixar uma mensagem de voz.
  • Use um modelo de panfleto, ou crie o seu próprio cartaz, e distribua e cole nas mercearias, farmácias, parques, etc.

 

5. Comunique e divulgue

Comece a divulgar para que o seu apoio seja disponibilizado e para que você possa identificar novos participantes. Use múltiplas estratégias de divulgação para assegurar que você está se conectando com as pessoas que mais precisam de apoio:

  • Ligue e mande e-mail diretamente para as pessoas.
  • Distribua os panfletos e cole cartazes.
  • Faça postagens nas mídias sociais.
  • Peça aos líderes comunitários que falem com as pessoas sobre o seu grupo.

 

6. Comecem a apoiar-se uns aos outros

Faça corresponder pedidos de assistência com voluntários. Tenha em mente que algumas pessoas podem não se sentir confortáveis pedindo ajuda ou recebendo ajuda, portanto não deixe de respeitar a privacidade das pessoas ao compartilhar informações. Verifique com os voluntários e pessoas que pedem apoio após um serviço ter sido prestado e certifique-se de que suas necessidades estão sendo atendidas.

Identifique oportunidades para apoiar e tomar medidas para ajudar os necessitados. Isto pode exigir alguma criatividade e empatia com as pessoas do seu bairro e com os mais necessitados.

Maneiras possíveis de ajudar uns aos outros incluem:

1) Ofertas de serviços

  • Entregar compras e suprimentos
  • Realizar tarefas e diligências
  • Cozinhar e entregar refeições
  • Cuidar das crianças e prover serviços educacionais
  • Cuidar dos animais de estimação
  • Captar recursos e pagar contas
  • Apoio com aplicações de serviços sociais (auxílios de emergência, Bolsa-Família, etc.)

2) Apoio emocional

  • Realizar encontros sociais virtuais: noites de jogos, festas culinárias
  • Fazer e compartilhar arte, música, escrita
  • Verificar como estão passando as pessoas que vivem sozinhas
  • Oferecer companheirismo virtual
  • Conectar pessoas com recursos e provedores de saúde mental

3) Informações e recursos

  • Banco de Alimentos
  • Orientações de saúde
  • Atualizações e políticas locais/estaduais
  • Acesso aos serviços sociais (Desemprego, seguro, Previdência Social, etc.)
  • Direitos e leis trabalhistas
  • Direitos e regulamentações habitacionais

     

7. Mantenham-se conectados, mantenham-se flexíveis

Mantenha uma comunicação regular com sua equipe e voluntários. Continue construindo as relações do seu grupo através de check-ins semanais. Certifique-se de incentivar o apoio entre os voluntários para manter as pessoas engajadas.

Seja flexível, pois as condições da pandemia de coronavírus mudam. Continue ouvindo as necessidades da sua comunidade. Mantenha-se atualizado com as diretrizes das organizações de saúde, profissionais ou não. Ajuste a forma como seu grupo está trabalhando para apoiar uns aos outros com base no que você aprender ao longo do caminho.

Respirar Fundo: Teletrabalho e conciliação: Uma falácia em formato de pandemia

Por Tamara Alvaréz

Nos três rápidos minutos que demorei para ligar meu notebook, tive que levantar pela queda de uma luminária que estava na mesinha e tirar das mãos de minha filha o vidro de um porta-retrato que ameaçava se estilhaçar no chão da sala. Agora ela está pulando sem parar em um sofá que, tenho certeza, não chegará vivo ao final da quarentena pois é o único lugar da casa onde uma criança pequena pode gastar livremente toda energia que tem dentro, que é muita… E ante meu nervosismo crescente, porque se machuca a cabeça tenho que levar a uma emergência lotada, e por ter que me concentrar em escrever apesar de tudo isso, respiro profundamente pela enésima vez no dia. Se me perguntassem a minha profissão, nesse momento te diria que sou uma respiradora profunda profissional.

Porque de todas as identidades que posso ter na vida agora sem dúvida há uma que se sobressai: sou a mãe de uma menina pequena cujo mundo desmoronou. Se o meu mundo também desmoronou é algo secundário a isso, já que a adulta sou eu e a que tem menos estratégias para lidar com a realidade é ela. Assim, a principal tarefa desde que nós mães deste país nos levantamos até quando nos deitamos é não deixar esse pesadelo se transformar no pesadelo de nossas filhas.

Essas criaturas das quais pouco se tem falado, apenas para nos dizer que são pequenos contagiadores com pernas e por isso temos que os isolar de sua principal fonte de estímulo e desenvolvimento: outras meninas e meninos da sua idade.

Então agora, além de exercer a função de cozinheira de comida saudável substituindo as cantinas escolares, e de professoras substituindo às professoras; é preciso colocar a mente no modo infantil e reunir forças para brincar o tempo todo substituindo os colegas que desapareceram com as aulas. E respirar fundo quando vês tua casa mergulhada no caos ao se transformar no pátio da escola e respirar para aceitar a ideia de que trabalhar com um mínimo de silêncio e tranquilidade como no escritório é uma utopia.

E, sobretudo, há que se respirar muito forte e apertar muito os dentes para não ficar louca lembrando do teu chefe dizendo que precisar de tele-trabalho para poder cuidar dos teus filhos é uma questão pessoal, que ele vai tentar, mas não é obrigatório. E ele ainda tem razão. Na maior crise global vivida nos últimos tempos, em que todos os meninos e meninas, da idade que for, recebem agora o mesmo grau de consideração que os bebês recém nascidos porque não tem creche, nem escola, nem colégio para deixar enquanto trabalhas; a resposta do mercado de trabalho é “Não me conte teus problemas, para isso que são teus”.

Então apertamos muito os dentes, e temos que engolir que é uma conciliação estar tentando render algo, com a mente dividida entre o relatório que estás fazendo e o que farás para comer hoje, enquanto com o rabo do olho percebes tua filha mexendo na tomada para ligar uma almofada massageadora que sequer sabias ter em casa.

E fazer isso sem protestar, né. Porque a situação social exige que estejas à altura. E tu és uma mulher, não apenas uma mulher, uma mãe. E ainda por cima uma trabalhadora. Então pensar em deixar teu trabalho para poder trabalhar de professora-cozinheira-parceira-para-brincar de graça é uma opção que nem sequer contemplas, porque assim não haveria nada para cozinhar, nem lápis para colorir, nem computador para as vídeo aulas da escola. E apertas mais os dentes porque ainda tens sorte, muito mais sorte que tua vizinha desempregada e sem renda porque trabalhava na informalidade, que a que tem um filho com transtorno de desenvolvimento exigindo que sua mãe além de professora-cozinheira-parceira-para-brincar se transforme em enfermeira-terapeuta-psicóloga, ou a outra mãe de uma menina da idade da tua que te confessou uma semana antes de começar o confinamento não ter internet em casa por ser muito caro.

E pensas que é injusto, mas, claro, logo lembras que vive em um país e em um mundo no qual o que tu e muitas mulheres estão fazendo não vale absolutamente nada porque não é reconhecido.

E como mulheres parece que temos que ter capacidade para enfrentar essa situação e estar à altura das circunstâncias, viver perpetuamente exploradas e ainda agradecer por nos permitirem enlouquecer tele-trabalhando porque a alternativa seria matar de fome nossas filhas.

E, certamente, se alguém nos impõe que nossas únicas opções sejam essas, somos nós mesmas. É uma decisão individual tomada em liberdade, te diria qualquer capitalista. Pois se quando decidiu trazer uma filha ao mundo não pensaste que podia ocorrer uma pandemia e que a teria que cuidar sozinha sem recursos públicos durante as vinte e quatro horas do dia, é porque tens uma mentalidade perdedora de pobre de merda. E o que acontecer contigo e com tuas filhas é tua responsabilidade.

Nisso insistem muito os ricos, que os filhos são uma espécie de propriedade da família. Eles dizem que é para proteger seu direito de educar seus filhos segundo suas crenças e sua liberdade, mas todas sabemos que é para aliviar suas consciências pesadas porque em momentos assim, o que acontecer com as crianças que não são as deles, não lhes diz respeito. Por mais que no futuro sejam essas mesma crianças que trabalharão para recuperar o país enquanto os ricos embolsam o dinheiro obtido com o trabalho de outros.

Como agora fazem conosco. Explorando-nos, obrigando-nos a trabalhar gratuitamente e sem parar. Tentar convencer-nos de que essa loucura de ter que cuidar crianças que estão vivendo uma situação limite e trabalhar de casa ao mesmo tempo é algo pelo que devemos estar agradecidas. O que deveria ser um direito fundamental das crianças de serem cuidados e das mães de cuidar com um mínimo de dignidade é assumido como presente do empresário frente a uma dificuldade pessoal.

Mas a vida segue porque desde que nascemos tentam nos convencer que isso é exatamente o que devemos fazer. Moldando dia a dia nossa personalidade, orientando-a ao cuidado dos demais, à abnegação, ao sacrifício. Vendendo-nos imagens de virgens como símbolos a aspirar. Dando-nos brinquedos para treinar ser cozinheiras, professoras e enfermeiras (e fazer de maneira gratuita, como se fosse uma brincadeira, quando chegar a hora). E chegou a hora. Agora teu país, como já fez com tua mãe e com tua avó, precisa que trabalhe de graça durante as 24 horas do dia. Dessa vez não te prometem um marido, porque já viram que consegues fazer sozinha. E se não falhas com o país e, enquanto trabalhas de graça, continuas fazendo de casa tudo o que antes fazia no escritório, te possibilitam a incrível dádiva de ser uma das eleitas que não precisa ficar na fila do banco de alimentos para ter o que dar de comer a tua filha.

 

[Publicado originalmente no periódico Rojo y Negro #346, junho de 2020, Madrid. Número completo en: http://rojoynegro.info/sites/default/files/rojoynegro%20346%20junio.pdf.]

Avaliando as habilidades que você pode trazer para o apoio mútuo

Texto traduzido do zine You Have Skills: Evaluating What Skills You Can Bring to Radical Organizing

É muito fácil, quando se olha para o panorama geral do trabalho de base, não saber por onde começar ou como ajudar. A situação pode se tornar debilitante e paralisante. E eu, como alguém com ansiedade, sem dúvida olho para o quadro geral às vezes e não sei o que fazer ou como ajudar e acabo ficando paralisado. Às vezes eu não ajudo porque não sei para onde ir.

Parte de se sentir confortável em ajudar, ser voluntário e trabalhar em solidariedade com as pessoas é saber como se pode contribuir. Vamos falar sobre diferentes formas de olhar para suas habilidades para que você saiba exatamente como você pode ajudar. Com a combinação de conhecer suas habilidades e conhecer seus limites, você pode consentir plenamente, com entusiasmo, com o que quer que você esteja se candidatando.

Nem todo trabalho de base é intenso ou glamouroso. As habilidades vêm de lugares surpreendentes. Você pode nem mesmo perceber que tem habilidades que podem ser usadas para a organização de ajuda mútua. Muitas vezes, pensamos que apenas habilidades específicas são usadas na organização de ajuda mútua. Este não é necessariamente o caso. Precisamos de mais do que apenas oradores de manifestações, facilitadores de reuniões e produtores de panfletos.

Antes de mais nada, o que você acha – assim, de cabeça – que você faz bem? Do que você se orgulha, que você sabe que faz bem? Qual é sua maneira ideal de ajudar amigues ou organizações?

Se você estivesse imaginando que havia um projeto acontecendo em sua área, pense em 30 minutos ideais de voluntariado; como seria isso? Estaria ajudando a acolher as pessoas conforme elas entram? Dando um treinamento? Inscrevendo pessoas? Cozinhando em uma cozinha? Estaria distribuindo panfletos? Estaria gritando na cara de um fascista? Imagine fazendo o que se sentiria mais confortável dentro de um grupo.

Você pode olhar para as habilidades que você usa no seu trabalho. Quais ferramentas você utiliza? Você sabe como manejar equipamentos de construção e construir? Você trabalha em um computador e pode organizar planilhas? Você lida com atendimento ao cliente e vendas? Você tem habilidades interpessoais como resolução de conflitos, treinamento, coordenação, equipe, organização de equipes, delegação ou pesquisa? O que são coisas que você colocaria em seu currículo? Eu posso te garantir que quase tudo que eu tenho no meu currículo, eu poderia definitivamente usar como ferramenta para organização de apoio mútuo.

Eu poderia colocar minhas habilidades de escrita em informações em um site. Eu poderia usar meu conhecimento em design gráfico para fazer posters. Eu poderia criar formulários online. Poderia organizar teleconferências. Há muitas coisas diferentes que podemos usar de nossos currículos que também podem ir para a organização de ajuda mútua. Saber que você tem essas habilidades na reserva é realmente importante.

Para aqueles que estão na escola, ou saíram da escola recentemente, de que habilidades você se lembra? Que técnicas você aprendeu? Aposto que houve pesquisa! E a escrita? Lidar com a autoridade? Aprender como trabalhar com professores para descobrir suas expectativas pode ser facilmente aplicado para descobrir as expectativas dos outros que você vai encontrar na organização.

Projetos em grupo? Palestras? Houve competências específicas que você aprendeu em suas aulas que eles lhe ensinaram? Você teve ensino técnico onde aprendeu coisas que poderiam ser aplicadas em uma variedade de situações?

Você pode analisar quais hobbies você tem. Quais de suas habilidades de seus hobbies podem ser aplicadas? Você cozinha? Você sabe construir coisas? Você gosta de escrever? Você gosta de fazer música? Você é grande apreciador de sobrevivência ao ar livre? Há tantas coisas que costumamos fazer no nosso tempo livre, que temos muita satisfação de fazer, que não são comoditizadas sob o capitalismo, mas ainda são habilidades muito valiosas quando estamos trabalhando em comunidade com outros.

Não se esqueça de analisar o que os outros lhe dizem que você é competente. Se você está falando com amigos ou colegas de trabalho e alguém comenta, “você é muito bom em explicar as coisas”, ou “você é muito bom em achar essas perguntas detalhadas”, ou “você é muito bom em mobilizar uma multidão”. Muitas vezes nós não olhamos para nós mesmos da mesma forma que as pessoas ao nosso redor nos veem. Às vezes os outros podem ser um recurso muito bom para descobrir no que você é bom.

Há coisas que você se voluntaria para fazer dentro da sua dinâmica familiar ou de amigos? Se você está fazendo planos para uma reunião, férias ou festa com sua família ou amigos, há algo que você costuma trazer à tona? Você é a pessoa que elabora o cardápio e coordena a comida? Você é a pessoa que gosta de reservar os voos? Ou a pessoa que gosta de descobrir as atrações e atividades? Você é a pessoa que realmente é ótima em levantar o ânimo de todos e deixar todos entusiasmados? Essas são coisas que você pode trazer para a organização de ajuda mútua.

Que habilidades você aprendeu ou usou com sua família? Muitas pessoas subestimam muitas das habilidades que desenvolvemos dentro de situações familiares, especialmente para pessoas que foram identificadas como do sexo feminino em sua infância. Há muitas habilidades que aprendemos, no gerenciamento da dinâmica familiar, na cozinha, limpeza, costura ou artesanato que podem ser facilmente aplicadas. Se essas são coisas que você gosta, você desfruta, e você tem cultivado uma competência, sem dúvida traga isso para a organização.

Quando você vê um projeto que você quer apoiar, é um realmente ótima ideia pensar sobre essas habilidades. É bom já ter avaliado suas capacidades para que você esteja ciente, então quando surge uma oportunidade organizacional, você pode entrar e dizer, eu tenho esta lista de habilidades, onde posso aplicá-las para ajudar com este movimento? Onde posso usar minhas habilidades de redação técnica? Onde posso usar minhas habilidades de jardinagem? Onde posso usar minhas habilidades de construção de equipes? Dessa forma você se encaixa nos mecanismos que já estão em funcionamento. Então você sabe, ei, eu vou ser voluntário para algo que eu já sei que sei fazer, e isso ajuda a todos. Você é capaz de fazer algo em que você esteja confiante, que você não vai sentir que vai estragar tudo, o que significa que você está mais propenso a se voluntariar, para começar. Isso também dá direção para outras pessoas porque elas são capazes de ver como as suas habilidades são aplicáveis e como isso pode se propagar pela comunidade.

Em conclusão, eu acho uma ótima idéia, mesmo que você esteja totalmente sozinho, no meio do nada, apenas fazer um inventário das habilidades que você tem. Quando a oportunidade bater, você terá uma lista definida que você possa usar e poderá dizer “ei, eu sou muito bom nisso. Deixe-me ajudá-lo” ou ” ei, eu posso fazer A, B, e C, mas não realmente D, E, ou F, onde eu posso me encaixar nesta cena?”

Isso dá muito mais rumo aos organizadores existentes do que alguém que vem e diz: “Eu quero ser voluntário”. Embora isso seja sempre apreciado, quando alguém sabe o que pode fazer e como pode contribuir, isso realmente ajuda.

Se estamos realmente hesitantes, nervosos, ou se sentimos que estamos fazendo algo mais por obrigação do que consentimos com entusiasmo, então realmente não damos o nosso melhor, e não nos sentimos o mais seguros que poderíamos estar.

No final das contas, precisamos construir essas relações revolucionárias uns com os outros como camaradas. Parte disso é entender o que você pode oferecer como você mesmo, para que outras pessoas não tenham que te pressionar; para que todos nós possamos nos sentir seguros e em comunidade juntos.


Checklist de habilidades transferíveis
Habilidades interpessoais

Interagir com sucesso com uma variedade de pessoas; sabe interpretar e usar linguagem corporal

Habilidades de comunicação oral

Apresentar informações e ideias de maneira clara e concisa, com conteúdo e estilo apropriados para a audiência (um-a-um ou em grupo); apresentar opiniões e ideias de maneira aberta e objetiva

Habilidades de falar em público

Fazer apresentações formais, apresentar ideias, posições, e problemas de maneira interessante

Habilidades de aconselhamento

Responder aos que os outros dizem sem julgar (“escuta ativa”); construir confiança e abertura com os outros

Habilidades de mentoria

Dar feedback de maneira construtiva; ajudar outros a melhorar seus conhecimentos e habilidades

Habilidades de ensino

Ajudar os outros a ganhar conhecimentos e habilidades; habilidades para criar ambientes de aprendizagem efetivos

Habilidades de supervisão

Delegar responsabilidades e estabelecer um sistema apropriado de responsabilidades; capaz de monitorar o progresso e avaliar a qualidade do trabalho e o desempenho dos outros

Habilidades de liderança

Motivar e empoderar os outros a agir; inspirar confiança e respeito nos outros.

Habilidades de persuasão

Comunicar efetivamente para justificar uma posição ou influenciar uma decisão; capaz de vender produtos ou promover ideias

Habilidades de mediação

Resolver conflitos que surgem de diferentes perspectivas ou interesses; capaz de lidar com conflitos de maneira aberta, honesta, e positiva

Habilidades de entrevista

Fazer e responder perguntas de maneira efetiva; capaz de fazer os outros se sentirem relaxados e criar um sentimento de confiança

Habilidades de atendimento de clientes

Construir uma relação de confiança mútua com clientes; capaz de administrar queixas e preocupações de maneira sensível

Habilidades de cuidado

Empatizar com os outros; capaz de oferecer cuidado sensível às pessoas que estão doentes, ou a idosos, ou pessoas que tem deficiências severas

Habilidades de pensamento lógico / analítico

Chegar a conclusões específicas a partir de um conjunto de observações gerais ou de um conjunto de fatos específicos; capaz de sintetizar informações e ideias

Habilidades de pensamento crítico

Revisar pontos de vista ou ideias diferentes e fazer julgamentos objetivos; investigar todas as soluções possíveis para um problema, pesando os prós e contras

Habilidades de pensamento criativo

Gerar novas ideias, inventar novas coisas, criar novas imagens ou designs; encontrar novas soluções para problemas; capaz de usar perspicácia oou humor de maneira efetiva

Habilidades de solução de problemas

Clarificar a natureza de um problema, avaliar alternativas, propor soluções viáveis, e determinar o desfecho de diferentes opções

Habilidades de tomada de decisão

Identificar todas as opções possíveis, pesar os prós e contras, avaliar a viabilidade e escolher a opção mais viável

Habilidades de planejamento

Planejar projetos, eventos, e progamas; capaz de estabelecer objetivos e necessidades, avaliar opções, e escolher a melhor opção

Habilidades de organização

Organizar informação, pessoas, ou coisas de maneira sistemática; capaz de estabelecer prioridades e respeitar prazos

Habilidades avançadas de escrita

Selecionar, interpretar, organizar, e sintetizar ideias-chave; capaz de editar um texto escrito para certificar-se de que a mensagem é o mais clara, concisa, e precisa possível

Habilidades de pesquisa

Saber como encontrar e coletar informações relevantes; capaz de sintetizar e analisar dados, sumarizar achados, e escrever um relatório

Habilidades financeiras

Manter registros financeiros precisos; capaz de administrar um orçamento (ou seja, preparar orçamentos sensatos e monitorar gastos)

Habilidades de linguagem

Funcionalmente bilíngue; traduzir e/ou interpretar algum idioma

Habilidades avançadas de computação

Usar uma variedade de programas de computador; conhecimento sobre editoração eletrônica e/ou web-design

Habilidades tecnológicas

Entender sistemas técnicos e operar efetivamente com esses sistemas; entender especificações técnicas; ler manuais técnicos com facilidade

Habilidades performáticas

Fazer presentações de vídeo e televisão de maneira interessante; capaz de entreter, divertir, e inspirar uma audiência

Habilidades artísticas

Usar cor e desenho criativamente; capaz de desenhar materiais visuais e de publicidade (impressões, vídeo, Internet)

Habilidades mecânicas

Instalar, operar, e monitorar o desempenho dos equipamentos e dispositivos mecânicos; capaz de reparar dispositivos mecânicos

Habilidades de adaptabilidade

Adaptar-se a novas situações e contextos para tolerar a mudança; flexibilidade para se adaptar às necessidades do momento

Habilidades administrativas e de escritório

Operar computadores e outros equipamentos básicos de escritório; desenhar e manter sistemas de arquivamento e controle

   

 

Introdução ao apoio mútuo

 

Na prática do apoio mútuo, que remonta aos primeiros passos da evolução, encontramos a origem evidente e indubitável de nossas concepções éticas; e podemos afirmar que, no progresso ético do homem, o apoio mútuo — e não a luta de uns contra os outros — tem o papel principal. Em seu avanço, mesmo no momento presente, vemos também a melhor garantia de uma evolução ainda mais grandiosa de nossa espécie.

Pyotr Kropotkin, “Apoio mútuo: Um fator da evolução”

No pensamento Akan, do sul de Gana, a comunidade é representada por um “crocodilo siamês” com duas cabeças, mas apenas um estômago. O estômago comum dos dois crocodilos indica que os interesses básicos de todos os membros da comunidade são idênticos. Portanto, pode ser interpretado como simbolizando o bem comum, o bem de todos os indivíduos dentro de uma sociedade.

FUNTUNFUNEFU-DENKYEMFUNEFU

No pensamento Akan, o bem comum não é um substituto para a soma dos vários bens individuais. Ele não consiste ou deriva dos bens e preferências de determinados indivíduos. Existe um provérbio Akan que diz: Obra ye nnoboa. Nnoboa significa “ajudar uns aos outros a trabalhar na fazenda”. Nas comunidades rurais de Gana, quando um agricultor percebe que o trabalho na fazenda não pode ser concluído dentro de um certo tempo se ele o fizesse sozinho, ele solicita a ajuda e o apoio de outros agricultores da comunidade. Os outros agricultores prontamente ajudam a esse agricultor, que, desta forma, completa sua produção dentro do prazo. O mesmo pedido seria, quando necessário, feito pelos outros fazendeiros em diferentes ocasiões.

Assim, obra ye nnoboa significa a vida é apoio mútuo.

Na nossa sociedade contemporânea, esse valor parece ter sido perdido. Estamos cada vez mais em-si-mesmados, atomizados, presos em nossos universos particulares. “Se os homens se
transformaram em escorpiões que picam a si mesmos e aos outros, não será afinal
porque nada aconteceu e os seres humanos de olhos vagos e cérebro murcho se
tornaram misteriosamente sombras de homens, fantasmas de homens, e até certo ponto,
nada mais têm de homens além do nome?” (Raoul Vaneigem, “A Arte de Viver para as Novas Gerações”). Nessa sociedade em que estamos isolados, encontrar uns aos outros e compartilhar uma vida diferente é algo revolucionário:

“Fomos criados em uma cultura de isolamento e derrota, onde nosso potencial é reduzido para atender às demandas da economia. Enterrados sob nossas próprias preocupações pessoais, nossas próprias contas e nossos próprios medos, somos obrigados a olhar apenas par anós mesmos. Mas somos capazes de uma vida diferente.

Para começar, elimine o isolamento. Corte as besteiras. Volte-se para as pessoas mais próximas e diga que precisa de uma vida em comum. Pergunte como seria enfrentar o mundo juntos. O que você tem? O que você precisa? Faça um inventário de suas habilidades, capacidades e conexõe scoletivas. Tome decisões que aumentem sua força. Estabeleça a base para uma vida em comum” – Inhabit, “Habitar: Instruções para a autonomia”

Para superar a crise e construir o futuro, um outro fim do mundo, precisamos fortalecer as resistências da vida cotidiana: essas ações que tomam lugar fora das organizações oficiais da política (partidos, sindicatos, grupos religiosos, grupos de base, etc.) e do olhar do Estado, e que mostram que existem muitas formas de vida além dessas formas organizacionais que expressam a potência coletiva. Alguns chamam a essas resistências de “o Comum”. Os autonomistas chamam de “auto-atividade” ou “auto-valorização”. Os anarco-comunistas identificam-nas com o apoio mútuo.

 

O que é apoio mútuo?

Apoio mútuo é um termo que quer dizer o intercâmbio recíproco de recursos e ações de ajuda para o benefício mútuo daqueles envolvidos no processo. É, portanto, uma forma de participação (anti)política na qual as pessoas assumem a responsabilidade por cuidar umas das outras e por mudar as condições políticas sem intermediários, sem algum vereador ou assessor ditando os rumos da mudança. Um outro nome para apoio mútuo, solidariedade, foi tão banalizado pelas igrejas e pelas grandes empresas que até perdeu seu sentido, mas implica em mutualidade:

“Ações de solidariedade são um meio de trazer amizades em potencial à existência, e tornando o mundo um lugar melhor no processo. Pois afinal, amigos nunca são demais, especialmente se você vive sob a ameaça da repressão estatal. Se você quer fugir do sistema de competição, no qual as pessoas só prosperam à medida que fazem os outros sofrer, a sua vida vai depender das redes de amizade e ajuda mútua — e não existe maneira mais rápida para fazer amigos do que ajudar os outros. Cada um de nós tem um tipo de recurso que pode ser compartilhado — o que você tem que as outras pessoas precisam?” – Crimethinc., “Receitas para o Desastre”

Ainda que, historicamente, o apoio mútuo seja associado aos anarquistas (taí a citação de abertura desse capítulo que não nos deixa mentir), o próprio Kropotkin sustentou sua tese do “valor adaptativo” do apoio mútuo através da observação cuidadosa de comunidades de “selvagens” – o termo usado pelo pensamento colonialista do século XIX para se referir às formas-de-vida não-européias. Assim, Kropotkin reconhecia que o apoio mútuo não era uma invenção do anarco-comunismo, nem que era baseada na independência autônoma do Estado ou nos direitos dos trabalhadores. É claro que o apoio mútuo incorpora autonomia proletária e as estratégias do anarco-comunismo, mas não podemos esquecer que o apoio mútuo é e sempre será uma tradição não-ocidental. O apoio mútuo é a forma de vida indígena, autóctone; é o poder e a vitalidade preta, que sobreviverá à teoria anarco-comunista. Apoio mútuo não é uma teoria. É uma prática que as pessoas não-brancas têm praticado desde antes que suas comunidades fossem devassadas pelo colonialismo e pelo capitalismo.

 

Apoio mútuo não é caridade

É preciso ter cuidado com duas coisas quando se faz grupos de apoio mútuo: a cooptação pelas estruturas de poder, e o Complexo do Branco Salvador.

Não podemos permitir que o apoio mútuo seja cooptado por organizações sem fins lucrativos, brancos querendo subir o morro, ou outras pessoas “caridosas” que não se comprometem com um entendimento do apoio mútuo como uma prática realizada por indígenas, pretos, e amarelos há muito tempo. Claro, em uma sociedade fraturada e que caminha a passos largos para a destruição, o apoio mútuo é uma maneira de sobreviver, mas seu objetivo, nas comunidades tradicionais, sempre foi o de fazer a comunidade PROSPERAR. Pense nos Akan do sul de Gana: a cobra siamesa não representa a mera soma das individualidades, mas o bem comum, que é algo mais. Diferente da caridade, o apoio mútuo deve ser um compromisso em fazer com que as pessoas prosperem, não somente que sobrevivam.

É claro que, em tempos de crise e pandemia, aqueles que têm acesso a recursos, dinheiro, empregos estáveis, e um teto sobre suas cabeças vão oferecer essas coisas sob o nome de “apoio mútuo”. A não ser que essas pessoas estejam prontas para se comprometer com objetivos de longo prazo que vão além da crise atual, o que estão fazendo é caridade, ou o Complexo do Branco Salvador. O escritor nigeriano-americano Teju Cole escreveu sobre isso: “O Complexo Industrial do Branco Salvador não tem a ver com justiça. Trata-se de uma grande experiência emocional que legitima o privilégio”. E ainda: “O branco salvador apoia políticas brutais de manhã, funda instituições de solidariedade social à tarde e recebe galardões à noite.”

Não é que não existam pessoas bem-intencionadas que procuram nossas comunidades querendo nos apoiar. Mas essas pessoas devem ser responsabilizadas por não exercerem o apoio mútuo além de uma situação de emergência. Essas pessoas devem usar seu tempo, dinheiro, recursos, e privilégio para educar os outros sobre como e por que o apoio mútuo é um compromisso com a comunidade. Se você tem acesso a todos esses recursos, ótimo! Mas não ache que doar algum dinheiro em uma vakinha, ou fazer as compras para uma senhorinha uma ou duas vezes durante a pandemia é fazer apoio mútuo.

Lembre-se: o apoio mútuo representa um compromisso de longo prazo baseado em resultados viáveis que leva a comunidade para além de sua dependência do Estado capitalista e colonizador.

 

O apoio mútuo deve ter potencial transformador

Cada grupo de apoio mútuo terá seu conjunto de valores compartilhados, aquilo no qual acreditam e apóiam. Mas algumas coisas são importantes de serem pensadas a todo momento, e há um conjunto mínimo de valores que não pode se perder de vista!

Se o apoio mútuo é uma forma de quebrar o binômio dos que tem e dos que não tem, fica claro que ele precisa ser horizontal e participativo. Do contrário, é caridade, uma forma de amaciar os egos mais do que de produzir apoio e solidariedade reais. Participar é ser capaz de fazer propostas, tomar decisões, e repartir responsabilidades para concretizar uma ação não-mediada. O apoio mútuo, como experiência de um novo projeto de sociedade, é acima de tudo uma escola de participação (anti)política. Assim, o apoio mútuo é uma prática multiplicadora que se sustenta quando busca:

  • Despertar a autonomia das pessoas, a confiança em seu potencial coletivo, ajudando-as a construir as capacidades de que necessitam para resolver suas demandas e as de seus aliados;
  • Anunciar a autonomia, a liberdade, e o apoio mútuo como opostos à ganância, à competição, e à exploração capitalista, ao poder e à dominação;
  • Canalizar a rebeldia popular contra a injustiça e pré-figurar, na própria ação de apoio mútuo, uma sociedade livre, em que a produção e a reprodução sociais sejam orientadas pela lógica da dádiva, do jogo, e do amor;
  • Transformar a realidade das pessoas envolvidas no apoio mútuo, com conquistas em todos os campos e dimensões da vida.

Uma consequência fundamental da ideia de que o apoio mútuo deve ter potencial transformador é que apoio mútuo significa criar um compromisso de longo prazo com a comunidade. O apoio mútuo é baseado no controle pela comunidade, com os indivíduos ajudando uns aos outros a se libertar da opressão do capitalismo e da autoridade. Apesar da caridade e do realocamento temporário de recursos serem aspectos importantes do apoio mútuo em momentos de emergência, não é algo central ao método. Para tomar emprestada uma metáfora já bem gasta, apoio mútuo não é só dar o peixe, mas também ensinar a pescar e, eventualmente, a imaginar novos mundos.

Apoio emocional autônomo e saúde mental pré-figurativa: Alguns materiais para ativistas

No contexto atual, de pandemia e escalada brutal do fascismo, torna-se transparente o caráter biopolítico dos afetos. Muitas vezes, a luta libertária produz uma carga emocional sobre aqueles que se engajam nela, de maneira que eventualmente nossa revolta se transvalora em afetos tristes e ressentimento. Criar uma cultura do cuidado entre anarquistas e aliades é fundamental para evitar isso, para criar condições para o apoio mútuo, para pensar uma saúde mental pré-figurativa, e para desmantelar divisões tradicionais entre trabalho ativista e trabalho afetivo.

Pensando nisso, traduzimos alguns materiais que podem ajudar singularidades ou pessoas que estejam engajadas em grupos de afinidade a desacelerar e lidar com situações estressantes. Esses materiais foram traduzidos e adaptados de diferentes fontes, e podem ser compartilhados livremente.

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A recusa

(O texto abaixo foi publicado pelo grupo Inhabit. Reproduzimos nossa tradução para somar o debate sobre apoio mútuo e sobre o futuro do anarquismo).

A situação evolui tão rapidamente que até mesmo as últimas notícias estão de alguma forma desatualizadas. A velocidade da crise torna a análise impossível, a crítica mais insuficiente do que nunca – conceitos antigos desnudados por novas realidades. O que pode ser dito que não parecerá pitoresco até amanhã? É difícil pensar e agir nesse ritmo, mas é preciso tentar.

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Festivais Cruéis: Furio Jesi e a Crítica da Política da Autonomia

O texto a seguir é um artigo de Kieran Aarons, publicado na revista Theory & Event em Outubro de 2019, e disponibilizado pela ill will editions. Trata-se de uma análise de alguns conceitos de Furio Jesi sobre insurreição, mitologia, e revolução, e é uma crítica importante para o insurrecionalismo atual – para que não fique preso em “festivais cruéis”, sem conectar o tempo da insurreição a um projeto: o risco é, seguindo a metáfora de Aarons, que “[n]o final, os mitos tecnicizados propagados pela sociedade burguesa sobre o terreno ‘não contingente’ do seu poder derrotam-nos não só reforçando a nossa timidez e docilidade, mas também inflacionando-nos inconscientemente com poderes para além das nossas forças, tomando as nossas próprias virtudes contra nós, emparedando-nos num mundo fechado: um bloco negro numa caixa negra, incapaz de contar material e projetualmente com as suas condições históricas, e privado, portanto, dos meios para se prolongar.”

 

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Notas sobre o fascismo tropical

A. Crise e precaridade

“É surpreendente que a anestesiologia – essa velha ciência do entorpecimento – não tenha estabelecido nenhuma contrapartida. O Vitalismo, por sua vez, apresenta-se como uma anarcoestetiologia.” – Manifesto da Internacional Vitalista

Quanto mais os corpos são guiados por interesses privados e privatistas, mais são determinados por instintos de massa. Essa crise – que o Comitê Invisível vê como constituinte fundamental dos governos – faz com que os corpos se prendam a uma espécie de coletivismo regressivo, de pensamento de capitalismo maquínico, em que não importa se reais ou virtuais, todos agem como autômatos. Esses instintos de massa são profundamente alienados da vida cotidiana, fazendo com que os indivíduos tornem-se insensíveis aos sinais de um desastre à caminho. Nunca esteve tão claro nas palavras e atos de um político a intenção de destruir completamente qualquer possibilidade de Vida – dos incêndios na Amazônia aos ataques ao conhecimento, da criminalização do pensamento ao racismo, à homofobia, e ao enorme sexismo. Nunca uma população esteve tão entorpecida, a ponto de confiscar-se seu intelecto e repetir “Mito! Mito!”, como se suas formas-de-vida estivessem a serviço não da potência, mas da impotência.

Nesse componente de crise, a vida cotidiana é lançada ao vácuo pela “clareza penetrante” que a crise lhes impõe. A centralidade do dinheiro interrompe os relacionamentos, minando a confiança, a calma e a saúde. A sobrevivência se impõe, e é corrosiva de convívio. Da mesma forma, o “calor está diminuindo” dos objetos do cotidiano, que repelem suavemente o apego e colocam barreiras contra as pessoas. Os objetos parecem símbolos de riqueza ou pobreza, e nada mais. Os movimentos humanos são impedidos de devir por um mundo intratável que oferece resistência ao seu desenvolvimento. Os custos da moradia e do transporte destróem a sensação de liberdade de domicílio. Os trabalhadores tornam-se grosseiros e hostis, como representantes de materiais que se tornaram hostis.

As reações pessoais a essa situação têm um efeito competitivo e atomizador. Cada um vê a crise geral, mas busca exceções para seu próprio campo de ação. Portanto, há uma luta constante para salvar o prestígio de áreas específicas do colapso geral, em vez de rejeitar a situação universal. À medida que cada um tenta conciliar a sobrevivência com o colapso geral, as pessoas ficam presas em ilusões de perspectiva decorrentes de pontos de vista isolados. Se o fascismo é uma racionalização de emergência da sociedade capitalista ameaçada pela crise econômica e pela subversão proletária, tal racionalidade “vem onerada pela imensa irracionalidade de seu meio” (Debord, A Sociedade do Espetáculo)

É sintomático que o discurso atual seja de crise internacional, da imagem do Brasil no exterior em função da reação às queimadas na Amazônia. Para aqueles que não estão afundados nesse imbroglio, o temperamento dos bolsonaristas – e, por extensão, de toda a nação – parece ter se tornado bárbaro e virulento de uma maneira incompreensível. Evoca-se o filósofo alemão Walter Benjamin – que morreu em 1940 tentando escapar dos nazistas -, para quem essa aparência – que é absolutamente invisível para todos os que estão envolvidos no processo – ocorre porque as pessoas estão totalmente subordinadas a “circunstâncias, miséria e estupidez”, a forças coletivas. As pessoas desenvolvem um “ódio frenético pela vida da mente”. Eles o aniquilam formando fileiras, contando corpos e avançando.

O componente da crise mobiliza afetos tristes, e o poder precisa de pessoas tristes para dominar, o ódio precisa de pessoas tristes para florescer. Os afetos tristes diminuem a potência, mesmo quando os fascistas acreditam estar empoderados. Ao apontar o arrependimento daqueles que não se alinhavam diretamente ao neofascismo, mas elegeram Bolsonaro em uma desesperada rejeição da política representativa, diminuímos, e não aumentamos, a potência de resistência.

 

B. Da fractalidade do neofascismo

O anarquista italiano Errico Malatesta, ao analisar os motivos da ascensão do fascismo italiano, identifica não somente aquelas questões clássicas repetidas por historiadores em todos os lugares (a crise econômica, a efervescência dos diversos socialismos), mas também uma espécie de “microfascismo”. Esse microfascismo pode ser entendido como a ética dos “homens de bem”, os ódios cotidianos e mecanismos de separação que permitem que o fascismo se institucionalize.

Em comum com o fascismo italiano, também o neofascismo bolsonarista se sustenta em cima de um microfascismo da vida cotidiana. Diferente do fascismo de Mussolini e Hitler, entretanto, o neofascismo se sustentou pela via das eleições:

“Esse perverso caminho, da democracia ao fascismo, linear, organizado não por movimentos externos, mas pelas mesmas instituições do poder constitucional, pela conformação dos órgãos de controle (da magistratura em particular) às linhas da extrema direita, é o desvelamento de um projeto coerente que atravessa as instituições, destruindo todos os elos e incidindo, sobre novas conformações, nas figuras formais da Constituição e na materialidade de sua direção política garantida pelo processo de legitimidade eleitoral, e assim dissipando qualquer caráter ético do princípio democrático: tudo isso impõe, quando e se a indignação diminuir, uma reflexão sobre o tema da democracia.” (Antonio Negri, “Primeiras observações sobre o fascismo“).

Antonio Negri identifica nas próprias contradições do capitalismo o elemento que permite que essa operação tome lugar: “Quando, todavia, intervêm fortes tensões que agem sobre as singularidades (que compõe a multidão), em termos, por exemplo, de insegurança econômica ou ambiental e de medo do futuro, então a cooperação multitudinária pode implodir em termos de defesa da identidade”.

O que caracteriza essa implosão é a fractalidade com que o neofascismo  se estabelece. Um fractal tem o mesmo aspecto em várias escalas diferentes – pode-se tirar um pequeno extrato da forma e tem-se o mesmo aspecto que toda a forma. Também o neofascismo bolsonarista apresenta essa fractalidade: pode-se extrair as relações da vida cotidiana que o sustentam e observar a mesma misoginia, racismo, homofobia, masculinidade tóxica, e ultra-individualismo hiperliberal que se observa nas instituições.

Como a produção desejante no capitalismo é marcada pela impotência, o desejo já nasce desejando poderes como garantias para a vida. Desde crianças vamos sendo ensinados a flertar com o poder como elemento garantidor da vida, e assim as relações costumam se “valer” pela posição que cada um ocupa dentro de um campo social. No lugar da potência criadora, uma estimulação à conservação através de poderes. Diferente da potência que precisa ser exercida em ato, sempre em situação, o poder, de antemão, equipa o sujeito com certos atributos que falam por ele. Por trás de todo poderoso há um corpo impotente incapaz de exercer uma ética da criação junto aos seus, daí que precisa que poderes discursem por ele, para conservar-se. De fato, nos parece que o que caracteriza o bolsonarismo como neofascista não é tanto a institucionalização de valores típicos do Ur-fascismo – como o populismo seletivo, a rejeição dos valores modernos, e o culto da “ação pela ação” –, mas essa micropolítica que permitiu que o fascismo subisse ao poder pela via do voto, esse fascismo fractal dos “homens de bem” que reproduzem as práticas sociais do poder fascista. Essa micropolítica que permeia nossas relações sociais na forma de violência, e que foi se instalando de forma imperceptível, navegando nas águas do sentimento comum, da moral e dos bons costumes, com baixa intensidade até escorrer como sedimento e abonar um pensamento passado a ato. Os bolsonaristas e sua libidinização da violência são só uma face desse fascismo, que inclui o conservadorismo das famílias e dos homofóbicos, as igrejas e seus conceitos de pecado e moral reduzidos à sexualidade dominante, os meios de comunicação e sua forma de tratar a diferença como exotismo – enfim, a cultura em todas as suas instituições hegemônicas.

Essa identificação, essa auto-similaridade, fazem com que as táticas tradicionais do antifascismo de ação direta sejam de difícil implementação.

 

C. Terrorismo estocástico e hordas virtuais e reais

Nesse momento, o neofascismo ainda está em sua primeira fase, que envolve um acirramento do microfascismo. O que observamos não é ainda a total institucionalização do ódio, mas ações do Baixo Clero e de apoiadores civis: parlamento funcionando, mas com violências dispersas, perseguições, delações, achincalhamento virtual, invasão de espaços culturais e universitários, agressões físicas, repressão a manifestações públicas, e assassinatos de pobres na periferia. “Terrorismo estocástico” é o uso de meios de comunicação em massa para demonizar grupos ou indivíduos, resultando na incitação de atos violentos de maneira estatisticamente previsível, mas individualmente imprevisível. A ideia é que seria possível a um agente mal-intencionado usar a Internet e outros meios de comunicação em massa para incitar perpetradores aleatórios, desconhecidos do agente, a cometer atos de violência. Como a relação de causa-e-efeito não é certa, diz-se que há previsibilidade estatística de que o ato de terrorismo irá ocorrer, mas é impossível prever individualmente quem será o perpetrador ou quando o ato irá ocorrer. O incitador pode então limpar as mãos.

Mas aí que está: o terrorismo estocástico não é possível se não há um receptor que possa entender a mensagem como um gatilho para a violência. É no caldo grosso das instituições do imaginário que o terrorismo estocástico é possível. É um pântano fértil de ressentimentos que permitirá, de maneira quase imperceptível, a institucionalização final do fascismo que Bolsonaro quer.

 

D. O espetáculo do bolsonarismo

Fiat ars, pereat mundus: essa é a palavra de comando do fascismo que, como reconhece Marinetti, espera da guerra a satisfação artística de uma percepção sensorial alterada pela tecnologia. É obviamente a realização perfeita da arte pela arte. Durante a época de Homero, a humanidade fez de si um espetáculo para os deuses do Olimpo; agora, fez de si um espetáculo para si mesma. Alienou-se de si mesma o suficiente para ter sucesso em viver sua própria destruição como alguma fruição estética de primeira ordem.” Walter Benjamin, “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica

O bolsonarismo, como o fascismo, responde à proletarização e à “inclusão pelo consumo” dando “uma chance de expressão” como substituto do poder, mantendo intacta, dessa maneira, a estrutura da propriedade e do Estado. A consequência lógica desse movimento é a estetização da política. Walter Benjamin já havia identificado essa característica no fascismo europeu do começo do século XX, e a relaciona ao caráter espetacular da mercadoria, que é transformada de simples objeto a espetáculo ou fantasmagoria. O fascismo expande a lógica do espetáculo ao campo da política, com seu populismo, seu apelo à estética da violência, seus discursos maniqueístas e simplistas, seus memes e slogans vazios, suas demonstrações de guerra. A única forma de canalizar os intensos afetos da multidão sem alterar a estrutura da propriedade, entretanto, é por uma intensa violência que guie as frustrações de uma maneira que não desestabilize o sistema.

A estetização da política sob a forma de violência retorna no discurso de securitização que imputa aos soldados e policiais o status de heróis. Também se revela na forma, se não no conteúdo, das fake news que circulam nos grupos de WhatsApp: essas histórias parecem ser menos selecionadas por seu valor de verdade (são, de fato, “pequenas verdades“) ou pela relevância para a vida dos leitores, mas pela capacidade de produzir afetos tristes e canalizar sua expressão. As fake news são uma força estética de indignação moral. Eles proporcionam prazer indireto da repressão decorrente do pânico moral que instigam, mantendo também insatisfação suficiente para impedir qualquer sensação de conclusão.

“A difusão das pequenas verdades é essencial nessa empreitada, elas garantem a ampliação do medo e da incerteza, da consolidação da ideia de que a miséria ou o declínio que as pessoas experimentam seria causada pelas nefastas ideologias pregadas pelos “esquerdistas” e suas consequências.” (Carapanã, “As pequenas verdade e a Nova Direita“)

Essa ação expressiva do bolsonarismo, no entanto, é também sua fraqueza, dado que está deslocada da economia da vida cotidiana. A estética do bolsonarismo oferece algumas das mesmas coisas que se perderam na intensa alienação da vida cotidiana: pertencimento coletivo, acesso a intensidades emocionais, a rituais e atividades públicas, confrontos ritualizados. Mas esses meios estão ligados a categorias que reproduzem o sistema dominante: estereótipos de grupos externos (cada vez mais “esquerdistas” e intelectuais, cada vez menos estereótipos raciais), reforço de hierarquias pró-sistema, reprodução de repressão emocional.

A diferença crucial é que tanto o fascismo clássico quanto o bolsonarismo dependem do poder sobre os outros como meio de expressão. Com isso, permitem que os seus seguidores expressem sua superioridade em relação aos “inimigos” por meio de performance constante e altamente visível. Às vezes, a performance é direta, como no caso de slogans e gestos. Às vezes é indireta, como no olavismo que influencia a política do governo. De qualquer maneira, o fascismo é um tipo de “conversor de energia”: permite que o status social seja transformado em afeto. Assim, fornece a base para uma política de patronagem negativa – onde, em vez de receber benefícios materiais, os apoiadores simplesmente recebem status. Portanto, embora produza poder em rede (contraposto às hierarquias de Estado), também reproduz o poder alienado.

 

E. Redes sociais e capturas

O espetáculo bolsonarista, como o nazismo e o fascismo de Mussolini, é baseado na propaganda, entendida como expressão da verdade absoluta do movimento. Para que essa propaganda possa se converter diretamente em violência das massas, é preciso fazer com que a ação de um Estado autoritário pareça uma atividade espontânea das massas. No hitlerismo, essa transformação aconteceu pela edificação de um formidável aparato midiático. A ascensão de Trump, Bolsonaro, e outros neofascistas recoloca em questão a íntima relação entre fascismo e a propaganda. Tanto Trump quanto Bolsonaro desprezam a mídia tradicional – exceto, claro, em suas manifestações mais partisan e extremas, caso de Fox News, nos EUA, e da Record e do SBT, no Brasil. Preferem a infraestrutura da propaganda em rede, resultante de um esforço distribuído e capilarizado, contando com um misto coordenado de esforço contratado com outro voluntário e que aparenta ser espontâneo. Multiplicam-se não somente os “robôs”, mas principalmente em “ciborgues” – indivíduos reais que operam como engrenagens em uma complexa máquina de propaganda.

De fato, o bolsonarismo cresceu não através de anúncios “microdirecionados”, a tática típica do trumpismo, mas pelo WhatsApp. Sendo um aplicativo de mensagens criptografadas, o WhatsApp não oferece espaço para publicidade nem para direcionamento das mensagens a grupos de pessoas específicos – a mensagem realmente só se dissemina se alguém passar para frente ou se alguém furar o bloqueio de spams da empresa e disparar mensagens em massa. Ainda, a viralização dessas mensagens e sua conversão em voto dependeu de muitos “carteiros voluntários” em todo país, uma massa de repassadores de conteúdo que faz com que a mensagem chegue até “a última milha” (ou seja, até os grupos de família, amigos e no fluxo de mensagens entre indivíduos) e ali seja defendida.

Se a “produção de conteúdo” bolsonarista parece se focar nessa rede, nas outras redes milícias digitais de robôs e ciborgues oferecem uma noção falsa de apoio completo e irrestrito da população às ideias e performances dos políticos bolsonaristas. O neofascismo fractal bolsonarista se tornou um “governo pelo Twitter”, onde a capilaridade da rede permitiu que postagens de políticos alcançassem diretamente essas milícias digitais, sendo amplificadas ao infinito. Também essas milícias alcançam rapidamente – e em massa – postagens de esquerdistas, produzindo desde enorme ruído que cessa o discurso até ameaças de morte e violência – uma tempestade chilreante, uma Twitterstorm. De qualquer maneira, a impressão que se produz àqueles que vivem na bolha é a de uma onipresença sufocante.

Em seu quadro “Die Zwitscher-Maschine” (“A Máquina Chilreante”), o chilrear (tuitar) infernal de uma máquina diabólica age como isca para atrair a humanidade a um poço de condenação. O jornalista Richard Seymour usou a metáfora da máquina chilreante/tuitante para falar sobre as redes sociais e seu potencial fascistizante:

“Há algo sobre a maneira como interagimos nas plataformas que, seja o que for que faça, amplia nossa capacidade de multidão, nossa demanda por conformidade, nosso sadismo, nossa preocupação irritadiça de estar certo em todos os assuntos.”

Se o Espetáculo é uma relação social mediada por imagens, o Espetáculo concentrado do culto de celebridades típico do fascismo dá espaço, na indústria das redes sociais, ao espetáculo difuso das imagens de mercadoria. Assim, o Espetáculo das redes sociais fascistizantes retira a concentração somente na figura do líder, e passa a multiplicar novos fascismos à volta de micro-celebridades, de mini-patriarcas, e no fluxo de mensagens homogêneas e homogenizantes. Onde o fascismo clássico direcionou o investimento do desejo na imagem do líder, o neofascismo fractal colhe a acumulação algorítmica do desejo na forma de identificação-por-Twitterstorm.

 

F. Uma conclusão

As características do neofascismo bolsonarista fazem com que algumas das táticas clássicas do antifascismo de ação direta sejam úteis para algumas situações – principalmente para retirar a plataforma de expressão de grupos abertamente racistas -, mas não o sejam em outros contextos. Nos parece claro que, contra grupos institucionais ou pára-institucionais, as ações de inteligência e documentação, oposição e contra-manifestação, apoio mútuo, e não-cooperação, são ainda fundamentais para bloquear o avanço de grupos, mas não serão úteis para combater as ideias proto-fascistas que sustentam o discurso na mesa de jantar.

Como é possível, então, combater o neofascismo bolsonarista? É preciso nos apropriarmos daquela máxima do filósofo francês Michel Foucault:

Não imaginem que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo se o que se combate é abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga nas formas da representação) que possui uma força revolucionária”.

O medo é natural, principalmente no Brasil Profundo, onde há muito se faz política na base da bala, e para aqueles que já são alvos da violência microfascista há tempos pela afirmação de identidades sexuais dissidentes. Não é à toa que o primeiro reflexo de resistência, ainda antes da vitória eleitoral de Jair Bolsonaro, foi o movimento puxado pelas mulheres. Mas é importante evitar o segundo estágio, o pânico, que imobiliza ou gera ações irracionais, e só agrava o problema da segurança. Claro, é preciso reconhecer que há, de fato, uma ameaça à própria existência. Para combater essa ameaça é preciso, antes de tudo, existir: ou, como diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, sobre as populações indígenas, “rexistir”, fazer da própria existência uma resistência. É preciso também saber separar o que há de fato de ameaça, e o que há de amplificação pelo pânico:

“Medo é o assassino da mente. Medo é a pequena morte que traz obliteração total. Eu enfrentarei o meu medo. Permitirei que ele passe sobre mim e através de mim. E quando tiver passado, eu vou virar o olho interno para ver seu caminho. Onde o medo desapareceu, não haverá nada. Só eu permanecerei.” -Frank Herbert, “Duna”.